Quando o polêmico Jânio Quadros atribuiu sua renúncia à ação de "forças ocultas", chamaram-no de louco. Jânio morreu em 1992, 31 anos depois de renunciar à Presidência da República, sem explicar de quê (e de quem) se constituíam tão irresistíveis instrumentos de pressão. Tanto seus admiradores quanto os adversários, a partir de então, citam as ditas forças quando se referem ao poder subterrâneo, voraz, ilegal ou incontrolável.
Nos últimos meses, o competente trabalho da Polícia Federal alcançou repercussão, ao levar à cadeia pessoas cujas práticas e costumes nacionais faziam sentirem-se acima de qualquer suspeita, jamais detidas ou encarceradas. As operações ganharam a mídia, sugerindo à população o começo de um novo tempo, de austeridade e moralidade. Mesmo descrentes, mercê de tantos anos de impunidade, os brasileiros exceto os envolvidos aplaudiram.
Conforme já prevíamos em manifestação anterior, bastou a sugestão de excessos cometidos durante as prisões, para que os demônios voltassem suas garras contra a instituição e, principalmente, na direção do trabalho anticorrupção. O ministro da Justiça, chefe hierárquico da Polícia Federal, foi chamado a intervir para que seus comandados sejam mais comedidos. Tomara que a sua intervenção seja apenas estatal, jamais política.
Os excessos policiais são reprováveis em qualquer nível. A própria Polícia Federal, assim como as demais polícias, nacionais e internacionais, possuem regras próprias para combatê-los e punir seus membros que tenham exorbitado. Não pode, no entanto, o suposto controle disciplinar prejudicar o trabalho policial e permitir que as grandes quadrilhas de fraudadores e ladrões do dinheiro público continuem atuando, fortalecidas pela mordaça imposta àqueles que as incomodam. O excesso, quando cometido, é individual, do policial, não da instituição ou da missão em cumprimento, que são perfeitas. Conferir-lhe importância maior do que a real é dar prioridade ao acessório em prejuízo do principal, no caso, o combate ao crime do colarinho branco.
Ao ministro Tarso Genro cabe a delicada e patriótica tarefa de, como chefe, exigir disciplina, mas oferecer os recursos para os federais continuarem sua cruzada moralizadora, tendo como objetivo alcançar e punir todos os indivíduos que cometeram crimes, independentemente de sua filiação partidária, amizade com poderosos ou sua posição na sociedade e no serviço público. Não pode, jamais, ser esquecido o simbolismo da deusa "Iustitia" que, de olhos vendados e balança na mão, concede a cada um o que é seu, não distinguindo o sábio do analfabeto, o detentor do poder do desamparado, o forte do fraco e o maltrapilho do abastado.
A Polícia Federal, enquanto instrumento do Estado, já demonstrou ter todas as condições de oferecer ao Ministério Público e ao Poder Judiciário os elementos para a justa punição daqueles que, mercê dos seus cargos públicos ou da influência, acabam obtendo vantagens ilícitas. Mais que isso, é importante que essas ações continuem recebendo a mais ampla divulgação para que o povo possa ter conhecimento das providências e dos desfechos.
Só com seriedade na apuração e justa punição a todos os que agiram ilegalmente é que se devolverá à população a auto-confiança e a certeza de que este é um país que vale a pena.
Espera-se que as "forças ocultas" tenham sido apenas uma desculpa de Jânio e que, se elas realmente existiram, já tenham morrido de velhas...
TENENTE DIRCEU CARDOSO GONÇALVES é presidente da Associação dos Policiais Militares do Estado de São Paulo (APOMI)
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