Começou a tragédia


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A Reichert, uma das maiores e mais antigas indústrias calçadistas do Brasil, anunciou que encerrará suas atividades no final deste mês. A empresa, fundada em 1935, vinha exportando 100% da sua produção de calçados femininos e não agüentou o peso da valorização do real ante o dólar. Tem 20 unidades industriais no Rio Grande do Sul (entre elas, curtume e fábrica de fôrmas). Cerca de 4 mil trabalhadores serão demitidos. Estavam programadas para hoje as primeiras dispensas: 75 funcionários das seções de modelagem. Os milhares de cortes ocorrerão até dia 30, quando será concluída a fabricação das últimas encomendas. Também entrarão na guilhotina muitas ou todas as cabeças dos trabalhadores das unidades que não fabricam calçados (a empresa não informou o que continuará funcionando do agrupamento). A crise nas vendas externas de calçados, que estava dramática e causara o fechamento de pequenas e médias fábricas gaúchas, passa agora a ter dimensão de tragédia ao nocautear uma empresa do porte e tradição da Reichert. Detalhe importante: ela é dotada das inovações tecnológicas que os psicopatas de Brasília apontam como alternativa milagrosa para viabilizar as exportações do setor. Para se ter uma idéia da grandeza dos negócios da Reichert no exterior, seus embarques de calçados somaram 85 milhões de dólares no ano passado e os de Franca atingiram US$ 141 milhões. Com a morte anunciada dessa gigante, talvez agora o governo federal acelere as medidas de apoio ao segmento. Há dois anos (atente: dois anos e não dois meses) a associação nacional dos calçadistas (Abicalçados) se reúne freqüentemente com ministros, secretários e técnicos da área econômica para lhes demonstrar esmiuçadamente a perda de competitividade no exterior. O presidente da entidade, Élcio Jacometti, foi a Brasília umas quarenta vezes solicitar compensação aos exportadores pela depreciação cambial. Em cada viagem aumentava a lista dos que deixaram o mercado internacional ou fecharam suas empresas. Desde 2005, em torno de 30 mil trabalhadores dessa indústria foram demitidos (10% do total). Somente no início do mês passado o governo federal resolveu estudar o caso e prometeu desonerar os exportadores de alguns encargos. Mesmo se a intenção daquele monstrengo for a de beneficiar os calçadistas com medidas formidáveis, excepcionais, impensáveis, capazes de restaurar a harmonia no caos, se elas demorarem serão oferta em velório da champanhe Cristal acompanhada do charuto Monte Cristo. Se uma Reichert sucumbe, imagine as outras. LAMENTÁVEL Se se tomar por base as recentes declarações de Ivan Ramalho, secretário-executivo do Ministério do Planejamento, Indústria e Comércio Exterior (segundo na hierarquia, abaixo apenas do ministrão), as medidas de Brasília aguardadas pelos exportadores de calçados serão água-com-açúcar, nada de medicação capaz de ressuscitar enfermo no estado terminal. “A maior parte dos setores conseguiu se adaptar ao patamar atual do preço do dólar. Quanto aos mais afetados - o calçadista e o têxtil -, o que mais preocupa não são as exportações, mas a competição dos importados”, disse Ramalho. Por sua vez, o ministro do Planejamento, Miguel Jorge (ex-jornalista), entende que o dólar desvalorizado causa na produção o mesmo efeito que a queda da inflação teve no desempenho dos bancos, décadas atrás (“tiveram de reduzir seus ganhos com a especulação financeira”, afirmou, mas não acrescentou que receberam 20 bilhões de reais do governo para recuperar o apetite voraz pelo sangue do povo). Jorgito comparou alhos com bugalhos e ressaltou, emprumado: “As deficiências do setor produtivo estão aparecendo, assim como muitos bancos quebraram [sic] porque não estavam adaptados ao fim da inflação. É normal que empresas quebrem, isso em qualquer setor, se não tiverem boa gestão”. Estão totalmente equivocados. GENTE FINA Em toda entidade de classe há sempre aqueles que batalham pelo coletivo e recebem de recompensa muxoxos. Não é o caso de Saulo Pucci Bueno e de Élcio Jacometti, tomando-se como referência a eleição da semana passada no Ciesp (centro das indústrias paulistas). De todas as regionais do Ciesp, a de Franca foi a única em que todos os associados compareceram à votação e elegeram Saulo Pucci, por unanimidade, para comandá-la nos próximos quatro anos. O atual diretor-titular, Élcio Jacometti, permanecerá como primeiro vice. O segundo vice é Carlos Roberto Cintra, de Calçados Democrata. Eles detestam reconhecimento pelo que fazem, mas julgamos merecedores de alguma medalha. Sugestão a algum vereador: investigue o que afirmamos, ficará entusiasmado para homenagear os dois.

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