José Gonçalves veio de Santo Antônio da Fortaleza, um vilarejo da cidade mineira de Ferros. Edinho é de Ituverava. Daniel nasceu em Franca e Luizão é de Orlândia. Quatro vidas com histórias e trajetórias diferentes, que se cruzam na Rua Luís Pires, no Jardim Redenção. Em comum, problemas familiares, o gosto pela pinga e o local onde dormem: a calçada de um galpão que faz fundos com a Igreja Universal do Reino de Deus.
No corredor lateral do galpão, fechado apenas por um portão de grade, um cheiro forte de urina e um tanque. Sob ele, um saco de lixo de 100 litros com os únicos pertences, fora as roupas do corpo, que os homens têm. São cobertores, doados por pessoas anônimas que se comoveram com as histórias deles.
Edinho, 34, foi o primeiro a chegar, há cinco meses. Ele conta que antes morava no Vera Cruz, passou por fazendas em Patrocínio Paulista, até se “instalar” na rua. Já foi servente de pedreiro, lavrador e carvoeiro. Segundo o próprio relato, chegou a trabalhar até na construção do Carrefour. Depois, ficou desempregado, não conseguiu se manter e a rua foi a solução encontrada.
José, 51, também passou por várias cidades até chegar em Franca.
Do interior de Minas, passou por Pedregulho e chegou por aqui para colher café. Casado, pai de três filhos - o mais velho com 16 anos - diz ter casa no Miramontes. Ele relata que, por estar desempregado, sua mulher brigava muito, motivo que o fez sair de casa. “Ela é muito enguiçada”, comenta.
Sem nenhum documento, que perdeu há seis meses, tem a mão direita enfaixada e enrolada em um plástico sujo. “Não foi nada.
Só um talho na mão”. A situação se complicou, há um tempo atrás, quando lhe roubaram os cobertores e foi obrigado a dormir apenas enrolado em plásticos.
Daniel, francano nato, prefere ficar com eles por questões familiares. Diz que um irmão, médico em São Paulo, arrumou um cômodo para que ele, a mãe e a irmã morassem. Como não dá certo com a irmã, prefere a companhia dos amigos, mesmo ao relento.
Luizão, com um cabo de vassoura na mão, que utiliza como bengala, tem dificuldade para andar e falar, provavelmente conseqüência de um derrame. Pelo pouco que balbucia, diz que o que acha pior de tudo é o frio. “É muito complicado. Dá até arrepio”.
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Outros passam por lá. Às vezes, chegam a dormir em até nove pessoas na rua, um ao lado do outro, mas Bob, um cachorrinho preto é quem os acompanha sempre. Apesar do frio, Edinho diz que lá é um lugar tranqüilo, em que ninguém “enche o saco”.
O pouco-caso das outras pessoas, e até mesmo a má-fé, é uma das coisas que os incomodam. “Nós não estamos roubando, fazendo mal para ninguém”, diz Edinho. Eles relatam que um amigo deles, Moisés, está desesperado. O motivo é que roubaram sua égua, a Princesa, e a carroça com a qual catava papelão pela cidade. “Era uma seis horas da tarde. Roubaram para usar drogas”, diz Daniel.
Todos dizem que já passaram pelo albergue da Prefeitura, mas que não compensa ficar lá. “Se for para dormir no chão, todo amontoado, prefiro ficar por aqui”, diz Edinho. Freqüentador da Igreja Universal, ele comenta que pastor veio questionar por que havia sumido dos cultos. “Com a barba e o cabelo desse jeito, como é que eu vou?”, se justifica.
O administrador do Abrigo Provisório, Adair Carvalho, confirma que eles passaram pelo abrigo. Não ficaram, segundo ele, pelo vício. “O problema é o álcool. Eles não obedecem às normas e querem beber”.
Diante das dificuldades, dizem querer mudar de vida. “Ficar na rua não presta. Arrumando um emprego de retireiro, pego a família e vou para roça”, diz José, com o olho brilhando.
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