O dono da festa


| Tempo de leitura: 8 min
O produtor William Clemente, no camarote da 38ª Expoagro. Ele foi responsável por toda a parte artística da feira. Engenheiro de formação, deixou a faculdade para organizar festas e durante seis anos, até fevereiro
O produtor William Clemente, no camarote da 38ª Expoagro. Ele foi responsável por toda a parte artística da feira. Engenheiro de formação, deixou a faculdade para organizar festas e durante seis anos, até fevereiro
<p>Ele já jogou bola com Bruno & Marrone e esteve ao lado dos sertanejos, em turnês pelo Brasil e exterior, durante seis anos, como seu produtor. Mineiro de Uberlândia, o engenheiro William Clemente, 43, deixou o trabalho com a dupla em fevereiro e, a partir de então, resolveu trabalhar como produtor de eventos independente. Nos últimos 15 dias ele enfrentou polêmicas, buscou parcerias e quase não dormiu para realizar, sem nenhuma ocorrência grave, a 38ª edição da Expoagro (Exposição Agropecuária) de Franca.</p> <p><br />Avesso a glamour e à imprensa, ele atendeu a reportagem do Comércio da Franca durante meia hora de folga em sua agenda e contou como é a correria, o dia-a-dia e os prós e contras de um trabalho que muitos sonham em ter: fazer festas. “Não é fácil ser promotor de eventos, principalmente porque criou-se a cultura de que todos precisam ir de graça. É complicado, pois vivo disso”. </p> <p>Durante a entrevista, concedida no sábado, dia 26, poucos minutos antes do show de Bruno & Marrone, Clemente recebeu 18 ligações em dois celulares que ficaram sobre a mesa no silencioso e revelou que a maioria era pedido de credenciais. “É preciso ser cauteloso e a experiência adquirida com anos de estrada ajuda nesses momentos”. </p> <p><strong>Comércio da Franca - Como e quando você começou a organizar eventos?<br />William Clemente</strong> - Quando estava na faculdade de Engenharia, organizava excursões para shows em cidades de fora e também promovia festas em repúblicas ou em boates pequenas de Uberlândia, no Triângulo Mineiro. Foram cinco anos organizando festas universitárias. Tomei gosto pelo negócio e junto com o meu irmão, também engenheiro, passei a fazer shows menores na cidade. Vi que minha praia não era a engenharia. Trabalhei no ramo durante seis meses na Pousada do Rio Quente, em Goiás, e depois guardei o diploma. Desde  pequeno, sempre fui organizado. Na escola, sempre estava envolvido em gincanas, associações estudantis e jogos. </p> <p><strong>Comércio da Franca - Qual foi seu primeiro show com artista famoso?<br />William Clemente</strong> - O meu primeiro show com famosos foi com a dupla francana Gian & Giovani e também foi o primeiro grande susto. Eles estavam no auge do sucesso e resolvi levá-los para um show em uma casa noturna de Passos, Minas Gerais. Porém, como estavam estourados, eles tinham dois shows no mesmo dia. O outro era em Mococa, interior de São Paulo. A boate que tinha alugado para o show estava lotada. Coloquei uma banda para segurar o público, mas eles não chegavam. Oferecia mais dinheiro para a banda e nada dos cantores. Enquanto isso, o pessoal não arredava o pé. Deu um gelo, uma adrenalina até que Gian & Giovani chegaram às 2h30 da manhã. </p> <p><strong>Comércio da Franca - Como você conheceu a dupla Bruno & Marrone e se tornou produtor deles?<br />William Clemente</strong> - Conheci a dupla quando eles ainda não eram famosos. Na época organizava shows pequenos e na exposição de Uberlândia, tipo a Expoagro, eles eram uma das atrações dos shows regionais, aqueles da segunda e terça-feira. Acabei me entrosando com o empresário e até mesmo com a dupla. Sempre convidava para shows de aniversário da cidade, apresentações em boates. Até que me chamaram para fazer a produção de portaria, que seria cuidar do dinheiro e toda a parte burocrática. Resolvi aceitar e logo o produtor da dupla precisou se ausentar e fui convidado para ficar no lugar dele. Fiquei na dúvida, mas como não queria trabalhar com engenharia, aceitei o desafio e peguei o Bruno & Marrone no auge. Trabalhei com eles durante seis anos, desde 2000. Rodei o Brasil, a Europa, os Estados Unidos e Japão. </p> <p><strong>Comércio da Franca - Por que resolveu deixar o trabalho?<br />William Clemente</strong> - Queria ficar mais com a minha família. Sou casado, moro em Passos, Minas Gerais, e tenho uma filha de 7 anos chamada Jade. Eu não a vi crescer. É um trabalho muito sacrificante. Foram 166 shows no ano passado. Teve época que fizemos 220 shows num ano. Como morava fora do trecho Goiás - São Paulo, para chegar a tempo nos compromissos, precisava sempre sair bem antes de casa e sempre chegava depois. Fiz as contas: em 2006 fiquei só 34 dias em casa. Agradeço a passagem pela dupla Bruno & Marrone, foi muito gratificante, mas em fevereiro resolvi sair por desgaste. Resolvi andar com as próprias pernas e fazer somente eventos. </p> <p><strong>Comércio da Franca - E quais as dificuldades nessa atividade?<br />William Clemente</strong> - Ela não é fácil. No começo se apanha um pouco, é ingrato. Se errar de início, pode sair do meio. Envolve muitas questões financeiras e os cachês são altos. Se hoje faço shows com Jota Quest e César Menotti & Fabiano, a bagagem de seis anos na estrada ajudou bastante. Hoje consigo fazer um show e não preciso pagar na hora. Ganhei credibilidade e para quem está começando, isso é complicado. O trabalho com o Bruno & Marrone me abriu muitas portas. Conheço muita gente do meio. Tenho acesso legal com duplas sertanejas, a galera do rock e a turma da Bahia. Fiquei tachado como o William do Bruno & Marrone. </p> <p><strong>Comércio da Franca - Existe muito calote nesse ramo?<br />William Clemente</strong> - Há muitas histórias engraçadas em relação ao pagamento de shows. Uma vez, no Nordeste, o cara não tinha dinheiro para pagar. Nós orientamos a não fazer o show, mas o público já estava com os ingressos e a estrutura estava montada. Não aceitava cheque, mas naquela situação disse para o contratante que aceitaria cheque do prefeito. Pensei, cheque do prefeito está garantido. Antes do show, enquanto o público entrava, fui até o gabinete do prefeito e lá foi feita uma procuração com a assinatura dele e a caminhonete do organizador do evento foi entregue como segurança. Fizemos o show e o pagamento não foi feito. Nesse dia, a caminhonete estava em Fortaleza e o prefeito foi até lá para vender o veículo. A venda foi feita e depois só aceitei receber o dinheiro, cerca de R$ 60 mil, no banco em que a dupla tinha conta. </p> <p><strong>Comércio da Franca - Como se escolhe a programação de artistas para uma festa como a Expoagro?<br />William Clemente</strong> - Primeiro, não é o show que você gosta que atrai maior público. É preciso ir para as ruas, pesquisar lojas de CDs, visitar barracas de CDs piratas, ouvir opinião de amigos, ter um termômetro. Para conseguir tirar o público de casa, o show precisa ser bom. Em uma festa como a Expoagro é necessário ter todos os gêneros. Pelo menos com um deles o público irá se identificar, mas algumas vezes ainda se erra. </p> <p><strong>Comércio da Franca - Que tipos de eventos você realiza?<br />William Clemente</strong> - Feiras longas como a Expoagro são poucas. São eventos mais difíceis de se trabalhar. Também faço poucos rodeios. Acho que rodeio não agrega público, com exceção da região de Barretos. Se na Expoagro houvesse rodeio, o público não seria diferente. As pessoas vão pelo show e não devido às outras atrações, como o rodeio ou a exposição. Prefiro shows de um único dia. Você lota o recinto, leva o artista e acabou. Feiras longas devem acabar. O público não tem dinheiro para ir todos os dias. </p> <p><strong>Comércio da Franca - Como é a sua relação com Franca?<br />William Clemente</strong> - Conheci Franca vendendo shows do Bruno & Marrone para a Expoagro. Lembro que fomos recorde de público na Exposição. Colocamos 37 mil pagantes em uma sexta-feira. Graças a esses contatos, a gente pega amizade. Depois fiz Marisa Monte no Poliesportivo. Lembro que o senhor Corrêa Neves esteve presente e depois do show me procurou para agradecer pessoalmente. Quem foi adorou, quem perdeu ficou arrependido. A partir daí, conheci o Comércio, as rádios da cidade. Fiz também duas edições do Skol Country, mas nunca fui muito de estar em evidência. Não preciso disso para meu ego. Houve situações em que fui barrado no camarote, fiquei parado na porta até o responsável pelo camarote falar que eu era o dono. Gosto de Franca e estamos com vários projetos para a cidade. </p> <p><strong>Comércio da Franca - Que avaliação você faz da Expoagro 2007 e da liminar que os estudantes ganharam na Justiça exigindo a lei da meia-entrada?<br />William Clemente</strong> - A Expoagro foi satisfatória. Na verdade, esperávamos um pouco mais de público, mas não tivemos nenhuma briga ou confusão que comprometesse o evento. Sobre o valor dos ingressos e a ação dos estudantes, em nenhum momento a organização queria aumentar o preço. Nós só fizemos isso por conta da liminar que exigia a meia-entrada aos estudantes. Como não dá para fazer uma festa com ingressos a R$ 5, tivemos que aumentar o preço para não estudante. Poderíamos ter solucionado o problema antes, mas acho que faltou bom senso. Os estudantes não foram favorecidos em nada. Pelo contrário, prejudicaram a cidade inteira.</p>

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários