Na fila da laqueadura


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OITO FILHOS - Nadir Augusta de Andrade com os filhos e o marido Isvanildo Xavier de Andrade
OITO FILHOS - Nadir Augusta de Andrade com os filhos e o marido Isvanildo Xavier de Andrade
Cristina Pereira dos Santos, 36, é mineira de São Tomás de Aquino, estudou até a 3ª série do ensino fundamental e parou de freqüentar a escola para trabalhar na colheita de café ao lado dos seis irmãos. Seu sonho era ter três filhos, depois dos 20 anos. Engravidou mais cedo. Aos 16 já era mãe. Hoje tem seis crianças e está grávida de gêmeos. O casal de bebês nasce neste mês. Casada com o lavrador Baltazar Santos, 41, há 20 anos, Cristina mora com o marido e os filhos Luiz Fernando, 20, Fabrício, 18, Estela, 15, Carla, 9, Larissa, 7, e Bruno, 5, numa casa alugada por R$ 180 no Jardim São Luiz II. A locação, as contas de água (R$ 55 por mês), energia (R$ 120) e alimentação são pagas com salário de R$ 1 mil do chefe da família e um dos filhos e doações. Os enxovais das oito crianças, inclusive, foram montados com ajuda da igreja e amigos. Na residência simples, os dias da dona de casa são longos. Cristina está de pé às 5h30, pronta para preparar o café para o marido e filho irem trabalhar na roça, encaminhar as crianças para a escola, fazer comida, lavar, passar, limpar a casa e dar banho nos pequenos. Ela se deita às nove horas da noite. “Vivo para meus filhos. Três dos meus meninos ainda são muito pequenos e dependentes demais. É difícil”. Atarefada com os afazeres domésticos e cuidados com a prole, Cristina vê seu sonho de ser professora se dissolver. “Queria muito aprender mais e poder ensinar os outros, dar às crianças a oportunidade de estudar que eu não tive. Sei que não vou realizar meu sonho, como vou me formar professora com oito filhos?”, pergunta-se. Disposta a contribuir com a renda da família, Cristina trocaria a lousa e os livros para fazer faxinas. “Tenho muita vontade de trabalhar fora e poderia ser de doméstica, mas não dá. Cheguei a costurar sapatos em casa, só que a gravidez atrapalha e acabei parando”. Como a mãe, os três filhos mais velhos correm o risco de não se formarem. Eles pararam os estudos para trabalhar e ajudar a alimentar e vestir os irmãos menores (dois estão desempregados). “Se eu trabalhasse, poderiam continuar na escola”, disse ela. A trajetória da família Santos poderia ter sido diferente. Cristina chegou a tomar anticoncepcionais de marcas diferentes, mas não suportou os efeitos colaterais. “Tinha muita dor de cabeça e estômago. Tomei uns cinco anos e depois parei”. Ela diz que desde a terceira gravidez tenta fazer laqueadura (operação para evitar filhos), mas não consegue porque todos os seus partos são normais. “A médica fala que sai do procedimento e não me opera. Já faz 16 anos que estou pelejando e não consigo. Estou disposta a fazer a cirurgia”. Em Franca, pelo menos, outras 100 mulheres vivem situações semelhantes à de Cristina. São mães à espera da laqueadura na fila do SUS (Sistema Único de Saúde). Todas têm idade mínima de 25 anos e mais de dois filhos. O tempo de espera para conseguir a operação é de, no mínimo, seis meses e pode chegar a um ano. A Secretaria de Saúde tem feito, via Santa Casa, apenas cinco laqueaduras por mês. As mulheres são atendidas por ordem de inscrição. [FOTO2] As usuárias, inclusive Cristina, esbarram na lei de Planejamento Familiar, que proíbe a esterilização durante o parto normal. Nestes casos, as mães podem fazer laqueadura apenas após 42 dias do nascimento. O problema é que médicos, especialmente da rede pública, incentivam o nascimento “natural”, evitando cesarianas. A Cristina, mãe de seis filhos e grávida de gêmeos, resta esperar por um futuro melhor. “Vamos lutando. Tomara que meus filhos tenham uma vida melhor que a minha”. OUTROS MÉTODOS A rede pública oferece outras formas de contracepção. Os homens também podem optar por um procedimento definitivo: a vasectomia (cirurgia que consiste em cortar os canais por onde passam os espermatozóides e evitar a fecundação). São feitas de 30 a 40 cirurgias masculinas na cidade por mês. As UBSs (Unidades Básicas de Saúde) ainda distribuem gratuitamente preservativos masculinos (são seis por pessoa por semana), pílulas contraceptivas e anticoncepcionais injetáveis (mediante apresentação de receita médica), além do DIU (Dispositivo Intra-Uterino). A Secretaria de Saúde não respondeu ao e-mail encaminhado pela reportagem sobre os procedimentos seguidos para a colocação desse dispositivo pelo SUS. A orientação sobre os meios de evitar filhos e por qual optar é feita pelas equipes de planejamento familiar - médicos, enfermeiros e assistentes sociais - nas UBSs e PSFs (Programas de Saúde da Família). “Muitos casais não fazem opção pelo planejamento familiar em virtude da religião (a igreja católica não aceita métodos contraceptivos que não a tabelinha). Também não existem no Brasil leis que impo- nham às pessoas um limite de filhos”, disse Selvio Simon, ginecologista da Secretaria de Saúde.

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