A duas semanas de completar 110 anos de existência, a Santa Casa de Franca enfrenta uma das piores crises de sua história. Rumores da gravidade da situação que agitaram os bastidores médicos durante a semana foram confirmados na noite de sexta-feira. Os fornecedores do hospital suspenderam a venda de todos os materiais cirúrgicos e medicamentos à Santa Casa até que os pagamentos em atraso, que somam mais de R$ 3 milhões, sejam quitados.
Sem dinheiro, sem crédito e com um estoque de produtos suficiente para trabalhar por apenas mais 25 dias, a direção da Santa Casa anunciou uma medida que lembra estratégias de guerra: vai racionar os atendimentos e cortar gastos. A idéia é que, com a diminuição do número de procedimentos realizados, os materiais e remédios hoje em estoque possam durar mais tempo, mas ainda assim, durarão, no máximo, 50 dias. “Não tivemos alternativa a não ser diminuir nosso ritmo. Queremos preservar os materiais para atender os casos mais urgentes, nos quais o paciente realmente corra o risco de morrer”, disse o provedor do hospital, José Chimionato.
Os cortes passam a valer imediatamente. O serviço de raio-X que aos finais de semana funciona no Pronto-socorro “Dr. Janjão” e na Santa Casa passa a atender apenas na Santa Casa já hoje. “A partir de agora, aos sábados e domingos, todos os exames de raio-X do PS terão de ser encaminhados para a Santa Casa”, disse o diretor-clínico do hospital, Marcelo de Paula.
Às terças e quartas-feiras, a suspensão se estende para os atendimentos do ambulatório de ortopedia, laboratório de análises clínicas, centro de reabilitação e fisioterapia e às cirurgias não emergenciais e cujo paciente não corre o risco de morte (eletivas). Ao todo, por dia, quase dois mil pacientes serão prejudicados. “Pedimos a todos que tenham procedimentos agendados previamente para que procurem o hospital e remarquem.
Infelizmente agora não temos condições de atender”, disse o diretor-clínico.
Também está suspensa toda e qualquer transferência de pacientes da região para a Santa Casa de Franca. Por mês, são 300. “Não vamos aceitar que pacientes já tratados em outras cidades venham para cá”.
Neste período crítico de 50 dias, a direção da Santa Casa tem uma dura missão: conseguir recursos para sanear as contas da instituição e convencer os fornecedores a voltar a vender para o hospital.
A aposta dos diretores é em parcerias com o governo do Estado e na ajuda de políticos, que, juntas, garantiriam R$ 3,1 milhões.
A maior parte do dinheiro viria do governo do Estado, de quem o hospital espera obter R$ 2,6 milhões, sendo R$ 600 mil do convênio de ajuda às entidades filantrópicas, aprovado nesta semana e que deve passar a vigorar em julho, e R$ 2 milhões em subsídio, estes bem mais difíceis de serem liberados e ainda sem qualquer análise.
O deputado estadual Gilson de Souza (DEM) seria o responsável pelos outros R$ 500 mil, di-nheiro de um pedido de verba já apresentado. “Esses valores não resolveriam toda a crise, mas, pelo menos, teríamos condição de negociar e tirar a corda do nosso pescoço”, disse José Chimionato.
Se os recursos não forem liberados, a Santa Casa de Franca poderá fechar suas portas. “Infelizmente, não teremos como atender os pacientes, simplesmente, porque não haverá materiais e medicamentos para isso. Até mesmo os casos de urgência e emergência ficarão descobertos. Seremos obrigados a fechar as portas do hospital. Será o fim de mais de um século de história”, disse, com a voz embargada, o provedor.
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