Ao longo dos últimos meses, esta coluna tem procurado discutir, do ponto de vista feminino, a separação na maturidade, tema de interesse para muitas mulheres. A proposta inicial foi a apresentação, por 18 edições, de um ensaio, publicado por partes, desse assunto tão delicado e cheio de vieses. Assim, dando continuidade às reflexões, estamos no ponto em que a mulher busca, a partir de uma ruptura importante, se reconhecer enquanto pessoa, enquanto ser singular.
Não se trata aqui de elevar a separação. Falamos de uma situação já posta, e de seu enfrentamento. Pois bem. A partir do ponto em que você se vê sem a companhia de tantos anos em convivência, inicia-se uma jornada que pode vir a ser muito bonita: é você se procurando a si mesma. Forjando novos referenciais, garimpando os antigos que ainda servem para a nova mulher que surgirá, criando novos grupos, projetando outras perspectivas, olhando-se a fundo para perceber e separar com clareza aquilo que deseja daquilo que não quer mais.
O primeiro passo para avançar minimamente íntegra desse momento será não se deixar afundar, não se tornar uma refém da nostalgia daquilo que teve e não possui mais. Lembre-se, a memória é como matéria plástica e molda-se conforme nossas necessidades mais momentâneas: se a dor é quase insuportável, lá estará a memória, fiel escudeira a maquiar os fatos, embelezando-os na lembrança, tornando-os mais interessantes, belos e apelativos do que realmente foram. Quem nunca se flagrou pintando as vivências emocionais com tinturas mais fortes do que as reais?
Mas também não será fingir que esses anos de conjugalidade não existiram ou nada significaram em sua vida. Como não? Será fornecer-lhes a exata dimensão, nem para mais, nem para menos, não esquecer a experiência, de modo a não repetir os mesmos erros e enganos e utilizá-la como argamassa para os tijolos que irão erguer uma nova estrutura.
NA MÍDIA
Embora todos saibam que falar sobre nossas dores auxilia, em muito, na sua superação e na reorganização das emoções, a revista Época publicou recentemente entrevista com o psicólogo e neurocientista Júlio Peres, (USP/SP), que comprova cientificamente que desabafar modifica o funcionamento cerebral.
De acordo com o estudioso, a psicoterapia modifica, efetivamente, o modo como nosso cérebro processa as informações.
E quem não pode fazer psicoterapia, como fica?, pergunta a revista. O pesquisador responde: "as pessoas traumatizadas tendem a se isolar. Não verbalizam o evento, não compartilham suas histórias. Justamente pela falta de contar e recontar essas histórias, as pessoas ficam com as memórias traumáticas fragmentadas. Medo, sensações dispersas, sem atribuição de um significado para o que aconteceu. Quando ela constrói esse significado, tem a possibilidade de reconstruir o momento trágico, trazendo um aprendizado daquele evento. Isso alivia a dor". Os resultados dessa pesquisa serão publicados este mês no Journal of Psychological Medicine, uma importante revista de divulgação científica.
MAIS
Muitas pessoas perguntam se relembrar situações traumáticas não seria o mesmo que ficar remoendo sentimentos e assim, viver em sofrimento. A questão, segundo consenso entre profissionais psi e também com Julio Peres, é que sem falar sobre situações incômodas, o sujeito não consegue dar significado e entender o acontecimento. "Falar modifica a interpretação. Escrever também é um caminho", aponta ele. Criar novos objetivos, para não ficar preso, circulando neuroticamente nos acontecimentos passados, é uma das saídas. "É ver o acontecimento como uma oportunidade para o aprendizado e o crescimento pessoal. Sentimentos positivos, como o altruísmo, ajudam a pessoa a melhorar rapidamente em vez de sucumbir ao trauma. É essencial não se sentir enfraquecido, incapaz perante o que viveu. E o trauma está muito ligado à incapacidade", comenta ele.
NARCOCULTURA
Muito interessante a entrevista no programa Roda Viva, da TV Cultura, a José Júnior, presidente do Afroreggae, uma ONG carioca que tem por objetivo a luta para tirar jovens da marginalidade, cujo trabalho foi implantado em Belo Horizonte (MG) e agora segue para Londres, como modelo. Mas chama atenção o que vem sendo denominado e apropriado por grupos como O Rappa e pelo Afroreggae como `narcocultura`, ou seja, um neologismo para definir um culto paralelo ao narcotráfico e nele contido, ao mesmo tempo, como algo interessante e que, segundo Júnior está aí, crescendo, há 30 anos. No Afroreggae, o que pregam, diz o presidente, é o tráfico de conhecimento e de informações para manter a moçada longe do tráfico. Essa narcocultura, que há muito saiu dos domínios de Vigário Geral está impregnada no estilo de vestir, nas músicas, nas danças, na gíria e nos gestos dos jovens aqui mesmo em Franca. Sejam eles de quaisquer níveis socioculturais.
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