O clima no Congresso é de vaca estranhar o bezerro, como os políticos de interior gostam de falar. A confusão é grande porque ninguém sabe o rumo que a Operação Navalha irá tomar. A divulgação de uma lista com dezenas de nomes – governadores, senadores, deputados, ministros, secretários de estado e uma penca de ex-tudo – supostamente presenteados com brindes de fim de ano pelo empresário Zuleido Veras, dono da empreiteira Gautama, provocou mais apreensão do que repúdio. Os citados preferiram não passar recibo e endossar o discurso de que é preciso apressar a reforma política e rever a forma de elaboração do Orçamento para acabar com a promiscuidade entre empresários, políticos e gestores públicos. Porém, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), foi arrastado para o olho do furacão. A sensação é de que virou a bola da vez.
No Senado, os cardeais da política brasileira tentam blindar o senador Calheiros. É uma espécie de "alto lá, que aqui é diferente". Renan exerce uma liderança mais compartilhada e suave, como um algodão entre a frágil maioria governista e a robusta bancada de oposição. Sua fraqueza é apenas aparente, como a do sertanejo. Mas é difícil avaliar em quais circunstâncias o Senado ficaria mais enfraquecido: mantendo ou forçando a renúncia de Renan. O espírito de corpo da Casa não é forte o suficiente para evitar desgaste junto à opinião pública.
Na Câmara, ainda abalada em razão dos escândalos do mensalão e das sanguessugas, a situação é de perplexidade. Governistas e oposicionistas não sabem o que fazer. A idéia de uma CPI para apurar o envolvimento dos parlamentares, empacou na Câmara, onde nasceu. Uma parte da oposição vacila pois percebe que a desmoralização do Congresso está se tornando cada vez mais irreversível.
Para complicar o cenário, o Judiciário está na berlinda. A ministra Eliana Calmon, do Superior Tribunal de Justiça, brilha ao conduzir o inquérito resultante da Operação Navalha. Mas tromba com o Supremo Tribunal Federal, no qual o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, questiona os métodos adotados nas investigações e concede habeas corpus aos envolvidos. O ministro já bateu boca com o ministro da Justiça, Tarso Genro, e acusou a Polícia Federal de "canalhice" por vazar informações sobre um homônimo envolvido no escândalo como se fosse ele. Quem se desgasta agora, com o prende-solta, é o Judiciário.
Do outro lado da Praça dos Três Poderes, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai muito bem, obrigado. Demitiu um ministro e outros envolvidos e se manteve ao largo da confusão.
Com a situação internacional favorável e a economia se aquecendo, procura fazer um segundo mandato melhor do que o primeiro. Mantém-se acima da crise e tem poder para arbitrar soluções, inclusive na reforma política. O momento político é tão propício à tese do terceiro mandato que já preocupa ao próprio presidente Lula: "Ninguém é insubstituível", tem repetido. Na verdade, o PT ainda não tem um nome competitivo para a sucessão de 2010, mas estão criadas as condições para o surgimento de um onda popular continuísta, como o "queremismo".
Como se sabe, o movimento "Queremos Getúlio" surgiu em 1945, lançado pelo Partido Comunista, para defender a permanência de Getúlio Vargas no poder. Não deu certo.
LUIZ CARLOS AZEDO é jornalista
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