"O mais difícil em tempos conturbados não é cumprir o dever, mas identificá-lo".(Rivarol). Prezado leitor, em tempos tão efervescentes como os que ora vivenciamos, em face de um verdadeiro self service de escândalos (de sanguessugas a navalhas), sugando e cortando, fazendo com que a seiva da mentecapta democracia se esvaia correnteza abaixo, eis que agoniza a Ética.
Como bem preleciona Edgar Morin, "toda ação escapa, cada vez mais, à vontade do seu autor na medida em que entra no jogo das inter-retro-ações do meio onde intervém". Não se pode ter como absolutamente certo que a pureza dos meios irá conduzir a resultados essencialmente ético/morais, como não se pode guardar certeza de que um ato considerado impuro, não conduza a resultados salutares.
O Fausto de Goethe, estampa a feliz conseqüência de uma má intenção e vice-versa. Fausto faz de tudo para que Margarida seja feliz, no entanto, só consegue produzir infelicidade.
Mefisto fez de tudo pela perdição de Margarida, entretanto desencadeou a intervenção divina que a salvou.
Vivemos de sobressaltos. A cada dia surge um novo escândalo na política.O que está por trás de tanta publicidade das mazelas que infestam o Poder? Em que oceano irá desaguar esse rio?
Poderemos nós, esperar algo de positivo em face do que está acontecendo? Haverá alguma intervenção divina no caso do Brasil?
O ministro japonês se matou porque não pôde suportar a vergonha de se ver envolvido numa investigação de corrupção. Os ministros daqui morrem, de tanto rir, da nossa cara. A Filosofia já previne que o futuro é imprevisível, contudo, no caso do Brasil, uma coisa é certa, a impunidade. Foro privilegiado, assessor assumindo o cargo do ministro que está sob investigação, mulher de senador assistindo em plenário ao `discurso da traição` (tanto da nação como do juramento no matrimônio), numa tentativa de sensibilizar o expectador e amenizar o impacto. Envergonha e revolta. Ao final o que acaba prevalecendo é aquele sentimento de impotência não apenas por não se poder chegar a um objetivo, mas, sobretudo, por saber que de escândalo em escândalo novas eleições chegam e os mesmos envolvidos estão sempre a ocupar os mesmos cargos de antes.
Lembram-se de Jader Barbalho? Pois bem, existe um grande vazio ético a rodear o indivíduo e a sociedade. Esse vazio perpassa todas as camadas. Não se pode imputar somente aos políticos essa imoralidade que já se institucionalizou. Todos, nessa teia social, têm sua parcela de responsabilidade. O que é a Ética senão o dever? Todos conhecem bem suas áreas de atuação. Têm consciência do bem, do "fazer bem", "agir pelo bem"`, do "cumprir seu dever". O dever daqueles que ocupam um cargo público ou privado é agir dentro dos princípios que regem a administração pública, ou dos mandamentos contidos nos contratos sociais e nos estatutos. É simples, ineficaz e sem efeito. Se assim não fosse não haveria tanto tripúdio em todas as esferas de ação do ser humano. Logo, se os princípios não servem mais como norteadores de uma sociedade, se as leis só existem no papel, se as instituições perderam sua credibilidade, o que sobra é a certeza de que se tem de recomeçar.
É preciso incutir nos corações e mentes, em primeiro lugar, que a coisa pública é de todos e que o poder não pode ser loteado, a seguir comunicar à população, em geral, que a `Lei de Gérson`, não pode mais fazer parte de nossa identidade nacional. Temos o dever moral de nos redescobrirmos enquanto povo.
No presente, está o passado que não pode ser modificado e o futuro que não pode ser conhecido, todavia, as decisões de hoje serão peremptórias para nossa salvação ou perdição nesse universo de contradições que é o Brasil.
NADIR A. CABRAL BERNARDINO é advogada, formada pela FDF, pós-graduada em Política e Estratégia e Direito Ambiental
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