Sem medo da solidão


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SOZINHA E SEGURA - Adolphina Martinez, a Dona Tininha, 68, tem quatro cães-companheiros: solidão não faz parte de seu cotidiano
SOZINHA E SEGURA - Adolphina Martinez, a Dona Tininha, 68, tem quatro cães-companheiros: solidão não faz parte de seu cotidiano
Viver em um ambiente tranqüilo, manter autonomia e desfrutar de privacidade, sem maiores preocupações com filhos, netos e parceiros. Esses são os principais motivos que fazem vários idosos optarem em morar sozinhos. O que para muitos pode ser sinônimo de solidão, para eles é prova de que ainda sabem, e muito, se cuidar sem ajuda de ninguém. Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), no último censo feito em 2000, Franca possui 24.135 pessoas acima de 60 anos. No Brasil, dos 18,1 milhões de idosos, 13,3% deles estão morando sozinhos. A doméstica aposentada Ilda da Silva, 69, é uma delas. Há mais de 20 anos ela não se incomoda em dormir sem ouvir o famoso “boa noite” de algum parente antes de se deitar. Divorciada, com quatro filhos casados e nove netos, Ilda não quis largar a rotina tranqüila de sua residência pela vida agitada na casa das noras, genro e netos. Convites não faltam. Mas Dona Ilda rejeita todos. “Gosto de ter um cantinho só para mim e poder cuidar das minhas coisinhas”, afirma. Apesar de morar só, a aposentada diz que não se sente sozinha em momento algum. Pelo contrário, sempre tem alguma coisa para fazer. “Quando não estou nos afazeres domésticos, saio, vou ao Centro Espírita, visito minhas filhas e me ocupo fazendo aulas de coral e dança com um grupo de idosos”, disse ela, acrescentando que não sente medo durante a noite. “Eu não facilito, quando escurece eu já tranco a casa toda e peço a Deus que me proteja sempre”. Dona Ilda não é a única. A aposentada Adolphina Carrasco Martinez, 68, mais conhecida como Dona Tininha, não agüenta ouvir os três filhos casados insistirem para ela ir morar com eles. Viúva há 30 anos, ela foi ficando sozinha aos poucos, a cada casamento deles. “Nas três cerimônias, foi uma choradeira só. Porque aí eu já sabia que além de ficar com saudade deles, a casa ia ficando mais vazia”, conta dona Tininha, que quando casou o último filho, há 15 anos, já sabia que iria morar só. “No começo foi difícil me acostumar com a casa sem barulho. Dava muita saudade deles. Mas foi só no começo; agora eu acho é bom”, diz. Também preocupada com a segurança, Dona Tininha não se descuida. Com quatro cachorros e alarme por toda a casa, ela ressalta que não está sozinha. “Falo para meus filhos que estou muito bem e eles podem ficar despreocupados comigo. Tenho meus cães-companheiros e eles me ajudam a cuidar da casa”. Para evitar a solidão, a aposentada se apega nos bordados e freqüenta o Clube da Velha Guarda. “Nunca me sinto sozinha. Meus filhos me visitam bastante. Além disso, faço crochê durante o dia e participo de reuniões de confraternizações com o grupo de idosos à noite”. Mas morar sozinho não é tão simples como parece. Para o médico Marco Aurélio Piacesi, os idosos podem fazer esta opção, mas a família não pode deixá-los solitários. “Eles precisam se comunicar, fazer contato com os vizinhos, pois no caso de sentirem a falta de movimentação na casa, é bom ter alguém para avisar”. O médico também alerta que muitos idosos dependem de remédios e uma alimentação adequada e, já que moram sozinhos, os parentes devem ficar atentos. “Acompanhá-los é essencial. Com o uso correto dos medicamentos e a alimentação conforme as necessidades ideais, eles ficarão com a saúde em dia e podem morar sozinhos tranqüilamente”, conclui.

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