Carvão de cana para mitigação


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O maior problema da humanidade hoje, embora nem todos estejam cientes, é a quantidade de CO2, gás carbônico, na atmosfera. Nos últimos 650 mil anos (histórico do gelo da Antártida), a quantidade de CO2 nunca passou a marca dos 300 p.p.m. (partes por milhão). Antes da revolução industrial, estava em 280. Nas sete eras glaciais que a Terra conheceu neste período a quantidade baixou para 180 p.p.m.. Atualmente, está em 380 e pode chegar a 480 em 2050. Se somente 180 ppm significa 200 metros de gelo, o que significará 480? Temos não só que parar a emissão de CO2 como retirar da atmosfera e armazenar de alguma forma. Muitas propostas surgem, como armazenar no mar e no subsolo. O Brasil tem potencial para armazenar nas rochas toda a produção mundial de CO2, mas não temos tecnologia para isso nem sabemos se funciona mesmo e o custo parece ser muito alto. O pesquisador Malcolm Fowles da The Open University, da Inglaterra, está propondo uma prática agrícola para retirar o CO2 da atmosfera, misturar carvão vegetal com o solo. Essa prática é conhecida como `terra preta` e comumente praticado na Amazônia, sendo documentada pelo pesquisador William Denevan. A pesquisadora Susanna B. Hecht, da UCLA, também documentou essas atividades nas tribos dos Caiapós, no Xingu. O carvão vegetal foi testado em laboratório como aditivo do solo, segundo o pesquisador Marco Rondon, do Centro Internacional de Agricultura Tropical, da Colômbia, (a) o carvão aumenta a fertilidade do solo através da capacidade de troca de cátions, que facilita às plantas a captura de nutrientes, e dificulta a perda dos nutrientes durante as chuvas. O carvão ainda (b) favorece a proliferação dos microorganismos do solo. Além disso, (c) melhora a retenção de água no solo e ainda (d) neutraliza os solos ácidos e (e) reduz a emissão de metano e óxido nitroso, também gases do efeito estufa. Dadas essas vantagens, podemos (políticos, empresários, agricultores e cidadãos que lutam por leis progressistas) pensar em mitigar carbono em biomassa, transformando-a em carvão e adicioná-la ao solo. E com vantagens sobre os métodos em discussão, pois (i) esta é uma tecnologia bastante madura e (ii) a produção tem baixo custo por tonelada. O seqüestro permanente de carbono pode gerar uma cadeia de valores, (1) o protocolo de Quioto prevê pagamento em dinheiro, o governo britânico estima que chegará a cem euros por tonelada; (2) a carbonização da biomassa reduz os custos dos resíduos e lixo no transporte, estocagem e processamento; (3) os produtos resultantes têm valor comercial: hidrogênio, alcatrão e ácido acético. O processo utilizado para a carbonização é a pirólise, que é uma decomposição química orgânica pelo calor e na ausência de oxigênio. Modernas plantas podem fazer o processo reapoveitando os gases e o calor gerados para aumentar a eficiência e reduzir custos e emissão de CO2. Curiosamente, o CTC, Centro de Tecnologia Canavieira, de Piracicaba, realizou uma pesquisa para aproveitamento dos resíduos da cana, incluindo recuperação da biomassa, gaseificação, medidas de mitigação de CO2 e implicações técnicas e econômicas, denominado `Biomass power generation - Sugar cane bagasse and trash` (escrito em inglês, sorry!) e que está disponível no sítio eletrônico www.ctc.com.br. Esse documento contém o resultado de 101 testes em 216 páginas. Está mais que na hora dos políticos cumprirem sua missão de estimular com leis de incentivo e financiamentos governamentais, como fizeram os EUA, para que as usinas de álcool agreguem valor ao que hoje é lixo. E não nos esqueçamos do lixo urbano, grande problema hoje mas que pode ser fonte de energia, produtos e mitigação. MÁRIO EUGÊNIO SATURNO é tecnologista sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), professor do Instituto Municipal de Ensino Superior de Catanduva e congregado mariano.

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