Jerônima Duarte, 62, dedica boa parte dos seus dias para lavar roupas da família, passá-las, cozinhar, cuidar da louça, olhar a netinha de 8 anos, fazer pães e montar pizzas para vender - são cerca de mil discos feitos a cada dois meses. Em épocas de festas beneficentes, Jerônima encontra espaço na agenda para ser voluntária nas barracas da Adef (Associação de Deficientes Físicos de Franca e Região). A rotina da dona de casa seria normal não fosse o fato de Jerônima viver numa cadeira de rodas por não ter metade da perna direita. A história dela é apenas um exemplo de pessoas que nasceram perfeitas, sofreram amputações, mas se adaptaram às novas condições e vivem bem, muito bem.
Há 28 anos, Jerônima sofreu acidente de carro, teve o pé esmagado pelas ferragens. Ela ficou 12 dias em coma, foram feitos enxertos, colocação de parafusos e pinos, mas o corpo dela rejeitou as intervenções e provocou infecção na perna, o que obrigou a retirada de metade do membro. “Fiquei chocada. Quando cortaram minha perna, fiquei três anos ‘enclausurada’, deitada debaixo de uma coberta para ninguém ver meu corpo”. A mudança só ocorreu depois que o filho de 9 anos foi fazer arroz para ela e queimou o braço todo. “Nesse dia, pulei da cama para socorrê-lo e foi quando acordei para a vida novamente”.
Jerônima diz que encontra forças em Deus e na sua persistência. “Não é qualquer coisa que me deita não... Sou uma dona de casa normal, só não ando. Aprendi a ser feliz e estar bem, mesmo com a deficiência”.
Como Jerônima, Fransérgio de Faria, 26, também foi vítima de acidente de trânsito e superou a deficiência deixada pela batida com um carro. Faz quatro anos que o frentista de posto aposentado por invalidez bateu a moto num carro e foi arremessado contra um poste. Com o impacto, perdeu o movimento do braço esquerdo. Vencido o desespero dos primeiros meses após a grave lesão, o rapaz se esforça para adaptar-se à nova maneira de viver. “Não consigo mais dirigir moto, opto pelo carro adaptado; aprendi a amarrar o cadarço com uma mão apenas; sou professor voluntário de informática na Unati (Universidade da Terceira Idade) e estou me preparando para cursar Educação Física”.
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Jerônima e Fransérgio não estão sozinhos. No Hospital Unimed, entre janeiro de 2006 e maio deste ano, foram 24 amputações simples e complexas. Só na Santa Casa, de janeiro a abril de 2007, foram 34 procedimentos (17 coxas e pernas, 11 dedos, 5 mãos e 1 braço). Um dos mais recentes foi a cirurgia de Eliana Eugênia Rodrigues, 33, na semana passada. Ela empurrava o carro do marido que estragou e foi atropelada por uma kombi. A paciente ficou presa entre os dois veículos, teve as pernas esmagadas e precisou amputar as duas, abaixo do joelho. Ela passa bem e, com ajuda dos parentes, começa a planejar seu futuro.
APOIO PROFISSIONAL
Acompanhamento psicológico. Esse costuma ser um importante aliado das pessoas que se deparam com a amputação de alguma parte do corpo. A sugestão é de Camila Junqueira, psicóloga responsável pela assistência prestada a usuários da Santa Casa de Franca. “A situação é bem difícil, pois é uma perda e como em toda perda, a pessoa tem de passar por um processo de adaptação. O mesmo é válido para os familiares; eles também necessitam de ajuda nessas horas”, disse.
O acompanhamento profissional permitirá à pessoa conhecer medos e inseguranças e trabalhar para superá-los. “A partir da psicoterapia, o paciente terá mais facilidade para perceber que tem limitações, mas poderá vencê-las encontrando alternativas para se adaptar. Cada um saberá o que lhe faz melhor”. Camila disse que a maioria das vítimas que sofreram traumas com amputações costumam recorrer a familiares e à religião para encontrar forças e retomar a vida. “Por isso, o preparo dos parentes para ajudar a pessoa na recuperação é essencial”.
O tempo para recomeçar é relativo. “Pode demorar meses e até anos. Dependerá da personalidade da pessoa e do apoio recebido. É preciso paciência”.
Para a assistente social Rosária Anastari, da Adef, é mais difícil lidar com a deficiência adquirida, quando a pessoa não nasceu com ela. “O luto pelo membro perdido vai existir, é inevitável. Mas as pessoas terão de perceber que não é o fim e que podem ser felizes”. As opções oferecidas pelo mercado ajudam a vencer limitações. “Hoje há próteses de vários tipos para substituir partes do corpo. A posição da sociedade também está mais aberta. Antes achava-se que os deficientes tinham de ficar em casa, mas hoje já estão incluídos na escola, no trabalho e na mídia”, disse.
Quem já venceu, deixa seu recado. “As pessoas não podem desanimar diante das dificuldades na vida. Se perdeu um membro, mas a cabeça continua bem, é possível continuar e chegar onde quiser”, disse Fransérgio.
Colaborou Renata Modesto
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