Conversa pra boi dormir


| Tempo de leitura: 4 min
A Unido (Organização para o Desenvolvimento Industrial das Nações Unidas) promoveu em Gramado/RS, na semana passada, um seminário sobre o mercado mundial de calçados, que reuniu representantes de produtores de vários países. Esteve no encontro o secretário-geral da Associação das Indústrias de Couro da China, Su Chaoying. Três informações dele são interessantes. Primeira: a China não está conseguindo se abastecer regularmente de alguns itens de fabricação de sapato e começou a reduzir a velocidade do crescimento da sua produção (estimada pelos concorrentes em 9 bilhões de pares anuais - o famoso chutômetro. Para se ter uma idéia, o Brasil produz cerca de 750 milhões. Também um chutômetro). Além disso, `o governo tem adotado medidas para impedir a poluição dos curtumes, o que lhe oneram os custos`, disse. Segunda: o calçado brasileiro é muito superior ao chinês na qualidade da fabricação e no design (a cara do produto, se feio ou bonito), mas as empresas de seu país estão investindo em tecnologia avançada e na contratação de profissionais estrangeiros para entrar no segmento de sapatos de maior valor. `Temos a fama de produzir quantidades imensas com pouca qualidade e isso nos atrapalha`, ressaltou. Terceira: questionado como o resto do mundo pode competir com a China, Chaoying declarou que `estamos estudando maneiras de compartilhar o mercado mundial. Já se avalia a possibilidade de reduzirmos as exportações. Estudamos também a abertura do nosso mercado com a proteção da propriedade intelectual, o que pode criar um ambiente favorável ao ingresso de marcas estrangeiras`, acrescentou. (Alguma restrição às falsificações, ele quis dizer.) Embora o operário da indústria calçadista chinesa desconheça direitos trabalhistas, pegue na enxada 14 horas por dia (excetuando-se o domingo) e ganhe de 100 a 150 euros mensais (340 reais, na média), Chaoying afirmou ainda que `a mão-de-obra está ficando muita cara e algumas empresas começam a se transferir para a Indonésia, Tailândia e Malásia.` Repassadas essas informações, que os calçadistas francanos tirem suas conclusões. De nossa parte, consideramos fantasiosa a declaração de haver qualquer intenção dos produtores chineses em diminuir suas vendas externas. Chaoying disse isso por diplomacia, supomos. Opõe-se, inclusive, a uma recente afirmação da Aokang Group, a líder na fabricação de calçados naquele país (emprega 15 mil trabalhadores e produz mais de 12 milhões de pares por ano). Referindo-se às medidas protecionistas adotadas em países europeus, a Aokang disparou: `Trabalhamos muito rápido. As empresas na Europa são pequenas e têm produtividade bastante inferior à nossa. A Europa deveria se dedicar a desenvolver sua produção, em vez de nos imputar os males de sua indústria.` E deixou claro que a China não abre mão da meta de calçar todo o planeta. BOM NO PAPEL Será prorrogada por mais um ano, agora em junho, uma linha de crédito que atende indústrias exportadoras intensivas em mão-de-obra. É o FAT- Giro Setorial, criado pelo Conselho Deliberativo do Fundo de Amparo ao Trabalhador (Condefat). O dinheiro desse fundo é emprestado pelo Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, com juro mensal de 0,85%. O custo é tentador, mas o critério dos bancos para selecionar os candidatos é esquisito. Um calçadista francano de médio porte revela que paga juros de 1,5% ao mês no desconto de duplicatas, para manter seu capital de giro. Pensou: trocar essas operações pelo crédito do FAT seria supimpa. Com posição consolidada no mercado, dono de propriedades e sem carnês do magazine Luiza ou outras dívidas, procurou o Banco do Brasil crente que conseguiria o empréstimo. Não conseguiu. Foi considerado de alto risco. Ficou fulo da vida, com razão. Há outros casos. Bancos, minha gente, esfolam os pobres e remediados e insistem em vender dinheiro a quem não precisa. Não correm o mínimo risco e contrariam totalmente a natureza dos negócios. Fazem agiotagem sanguinária que constrange os informais. Fingem concorrer entre si para demonstrar que não são uma quadrilha. Vade retro, satanás. SOMOS INVIÁVEIS O brasileiro retém apenas 60% de seu rendimento, o restante é devorado por tributos. Trabalha 4 meses e 26 dias do ano para pagar impostos, taxas e contribuições cobrados pelos governos federal, estadual e municipal, segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT). Esta anomalia é uma das principais causas que travam o crescimento econômico do Brasil, porque pouco sobra da renda do cidadão para impulsionar o consumo de bens e serviços. Outra monstruosidade são as taxas de juro estratosféricas. Somente essas duas bestas do Apocalipse massacram o País e seus habitantes. Juntadas às demais nos tornam inviáveis e impossibilitam qualquer vislumbre de bem-estar social.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários