Desempregado, dois filhos menores para criar e a mulher internada em estado grave. Depois de tanto desespero, José dos Reis, marido de Eliana da Silva Rodrigues, 33, precisa encontrar um modo de tocar a vida. Na tarde de ontem, ele concedeu uma entrevista para o radialista Marcelo Valim, durante o programa Realidade da Vida, na Difusora AM e contou um pouco do momento difícil que atravessa.
É crítico o estado de saúde de Eliana. Há uma semana, ela foi atropelada por uma Perua Kombi ao empurrar o carro do marido e teve as duas pernas esmagadas. Após um início de recuperação surpreendente, seu organismo reagiu mau à dupla amputação e ela precisou retornar à mesa de cirurgia ontem para tentar acabar com uma infecção que atingiu a perna direita.
Marcelo Valim - O que está acontecendo com a sua mulher?
José dos Reis - Eu conversei agora há pouco com o médico dela. Ele me disse que vai examiná-la e ver se terá que amputar mais um pouquinho da perna direita dela. Mas ele não tem certeza, disse que vai fazer o possível para não ter que fazer isso. Ela está com infecção, com bastante secreção e ele vai limpar para evitar outra cirurgia. Vai fazer o possível, mas não está descartada. Ela está bastante confusa, delirando muito, não está falando coisa com coisa. Tem que pegar na mão de Deus porque só Ele pode fazer alguma coisa por ela.
Valim - Como foi o acidente?
José - Na hora... na hora ali, eu vou te falar a verdade, muita gente pergunta se eu vi o cara, se eu conheço ele. Eu não me lembro do jeito que ele é, fiquei desesperado mesmo, nem tive tempo para isso. Então... porque a gente ficou 10 minutos dentro do carro, rindo. Minha filha que não sabe ler muito direito, leu uma frase e nós ficamos rindo, brincando. Aí ela, do jeito que ela é, já resolve as coisas na hora. (Quando o carro parou) Ela desceu e disse `já que temos que empurrar, vamos empurrar`. Eu falei `vamos empurrar até o posto que nós deixamos o carro lá e vamos buscar ajuda`. Aí ela desceu do carro, minha filha colocou os pés para fora e ela já falou `você vai ficar aí dentro porque tá chovendo e você vai ficar doente`. Aí minha menina ficou meio emburradinha e, em vez de ficar sentada, ela deitou. Aí ela (Eliana) foi para trás do carro e eu falei para esperar um pouquinho que vinha um ônibus da São José, passou o ônibus e a gente empurrou uns quatro, cinco metros, não vinha carro, não vinha nada. Portanto (depois da batida) eu fui atirado no meio da pista, ela também. Se viesse outro carro tinha passado em cima da gente, com certeza. Para mim, quando eu vi a perna dela do jeito que estava, toda esmagada, fiquei desesperado. Para mim ela ia perder uma perna só. E quando o médico falou que eram as duas, eu me desesperei outra vez. A psicóloga está chamando a gente para explicar as coisas certinhas. A gente está fazendo o possível para não ficar chorando perto dela, porque chorar, a gente chora mesmo. Hoje quando me ligaram para falar que ela estava mal, que ela está no balão de oxigênio... eu já chorei um monte de vezes hoje. Às vezes não dá para segurar. A única coisa que eu quero é que todo mundo ore por ela. Meu sonho é ver ela andando. Só isso que eu queria.
Valim - Ela tem noção do que aconteceu com ela?
José - Não. Ela está caindo na real agora. Agora que está mais complicado. Ela está voltando agora. Ela não está bem da cabeça. Disseram que vão encaminhá-la para uma médica porque ela não está sabendo nem onde está. Hoje inclusive, ela falou `vai lá chamar o boi, porque ela me chama de boi, porque ele foi jogar bola e me deixou aqui e eu quero ir atrás dele`. Até sábado ela estava bem. Eu chorava e ela passava a mão na minha cabeça dizendo que tudo ia ficar bem. Só que de ontem (domingo) para hoje ela já acordou totalmente diferente.
Valim - E para você, para sua menina? Você acha que foi Deus, que já estava escrito que isso iria acontecer?
José - Eu não sei se foi Deus... eu não sei se... eu acho que Deus não quer mal para ninguém. Jamais Deus iria jogar uma perua em cima de uma pessoa tão boa. Eu sou casado há 17 anos, sou testemunha que ela é muito mais religiosa que eu. Eu, em vista do que ela é, não sou ninguém. Para mim ela é uma guerreira. Todo dia ela dorme, eu tiro a Bíblia da mão dela, guardo, porque ela não dorme sem ler a Bíblia. Então, essa questão se foi Deus... ainda está meio no ar para mim.
Valim - Sei...
José - Eu acho que a gente que é ser humano, no caso eu... Eu dirijo, tantas pessoas dirigem... Eu acho que tinha que ter mais consciência disso. Eu já coloquei CD no carro andando, mas não vou fazer mais isso. Porque eu posso estar colocando a vida de outra pessoa em risco. Só quando acontece um fato desse é que a gente pára para pensar, passa a dar mais valor na vida da gente, na família da gente, nos amigos da gente.
Valim - O que você falaria para o rapaz da perua?
José - Eu só gostaria de falar uma coisa. Porque eu não sou Deus, eu não julgo ninguém. Até hoje ele não me ligou, não me procurou, não foi ver ela no hospital, porque isso eu acho que não é uma coisa assim do ser humano. Eu acho que o dinheiro não é tudo. Se ele está correndo, às vezes fala que o carro estava no meio da rua... Eu não estava. A minha filha está lá de prova.
Jamais eu iria parar um carro no meio da pista. Para mim ele não está sendo humano. Isso que eu gostaria de falar para ele. Eu jamais quero tirar tudo que ele tem. Acho que ele tinha que unir força comigo, fazer campanha para ela voltar a andar. Eu não quero R$ 50, R$ 100 mil, eu só quero ajuda para ela voltar a andar. Eu não estou preocupado com comer, com água, com luz, prestação da minha casa, eu não estou preocupado com isso. Eu só queria que ele unisse as forças conosco para ajudar a devolver a vida para ela. Ela era uma pessoa independente, andava, gostava de freqüentar os lugares que eu ia. Por que ele não procurou, não deu atenção para ela? Sábado ela disse que não tem mágoa dele, não fica chateada com ele, que ele deve ter se distraído. Feio é o que ele tá fazendo de levantar falso testemunho contra a gente. Eu acho que ele não está sendo humano. Quem está lá é a minha mulher, ela perdeu as duas pernas. Sem falar que a parte mais bonita eram os pés dela. Eu acho que ele tinha que refletir e contar a verdade. E que Deus abençoe ele.
Valim - Uma mensagem que você poderia mandar para a sua mulher.
José - Eu peço a Deus que ele ilumine os caminhos dela. Ele sabe o que é melhor para ela. Com certeza ele está do lado dela, do meu lado e dos meus filhos. Eu oro todo dia, choro às vezes. Eu tenho certeza que Deus está olhando por ela. Se ela saiu daquele acidente, é porque Deus tem um propósito muito grande na vida dela. Ela tem muito medo de me perder, mas eu jamais vou abandoná-la. Eu tenho certeza que tanto ela, como eu junto com ela, nós vamos ser muito felizes.
OUTRO MOTORISTA
No final da tarde de ontem, familiares de GNG disseram que o rapaz de apenas 20 anos está muito chocado com o acidente e ainda não tem condições de falar sobre o assunto.
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