"Carlos amava Dora, que amava Lia, que amava Léa, que amava Paulo (...) que amava toda a quadrilha". O trecho da obra-prima Flor da idade, de Chico Buarque, ganhou, com o escândalo dos Bagres, um paralelo em Franca. As investigações do Ministério Público e da Divisão de Auditoria revelaram que todos os envolvidos na fraude da licitação mantinham laços pessoais, familiares ou de negócios entre si.
Tudo começou com o anúncio público do prefeito Sidnei Rocha (PSDB), em 19 de março, de que a Prefeitura investiria R$ 6 milhões em obras no Córrego dos Bagres para combater as enchentes. Seriam feitos o aprofundamento do leito e o alargamento das margens para que aumentasse a capacidade de passagem de água no local.
A euforia do tucano com as melhorias, porém, durou pouco: 11 dias depois, ele próprio viria a cancelar a licitação das obras ao descobrir que a empresa que elaborou o projeto técnico da obra e atestou que ela custaria mais de R$ 4 milhões, a Betontest, pertencia à mulher de um engenheiro da Prefeitura.
Desconfiado dos valores indicados pela empresa, Rocha cancelou a licitação para a execução das obras.
O "cabeça" de tudo seria o secretário afastado de Planejamento Urbano, Wilson Teixeira. Como a elaboração do projeto foi feita por carta-convite, era atribuição de Teixeira indicar três empresas de engenharia para concorrerem no processo. Quem apresentasse menor preço ficaria com a responsabilidade e com os R$ 40 mil destinados para a contratação do serviço. Indicou Betontest, FFC e Infratécnica. Com oferta de R$ 39,8 mil, a vencedora foi a Betontest.
A empresa, porém, tinha vinculação direta com a Secretaria de Planejamento. Sua proprietária, Taísa Franceschi, é mulher de Marco Antônio Franceschi, o engenheiro da Prefeitura subordinado a Teixeira citado no começo da matéria.
A segunda colocada foi a FFC Engenharia. Novamente, surgiria o nome de Marco Antônio. No quadro societário, constam os nomes de seu pai, José Darcy Franceschi, e de seu ex-cunhado, José Eduardo Corrêa. Após o escândalo, o nome de José Darcy foi excluído da sociedade.
Por fim, a terceira empresa indicada foi a Infratécnica. Até na última quarta-feira, não havia qualquer confirmação de envolvimento dessa empresa na fraude. Mas o Ministério Público descobriu que os proprietários dessa empresa, os engenheiros Roberto Latorraca Lima, Régis Latorraca Ribeiro Lima e Paulo Roberto Bortoletto, são donos, também, da Imobiliária Paraty, e têm como sócio o próprio Wilson Teixeira. A empresa, portanto, poderia, segundo o MP, ter participado da concorrência para perder e abrir caminho para a Betontest. Parece confuso? Veja o quadro ao lado e entenda as relações ente os envolvidos.
Para o Ministério Público, a ligação entre Infratécnica e Teixeira deixa claras as relações afetivas e de negócios entre todos os envolvidos direta e indiretamente no escândalo dos Bagres. "Para mim, fechou o cerco", disse o promotor de Justiça, Paulo Borges, responsável pela apuração das irregularidades.
Voltando a citar Chico...Teixeira, que era chefe de Marco Antônio, que era casado com Taísa, que era filha de Darcy, que era sócio de José Eduardo Corrêa, que era amigo de Teixeira, que era sócio da Infratécnica...
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