Uma diferença de 28 vezes é o que separa o consumo das famílias mais ricas da cidade do das mais pobres. Isso quer dizer que, para cada R$ 1 gasto pelos pobres, os ricos consomem R$ 28. O enorme abismo que separa as 391 famílias francanas que pertencem à classe A das 3088 da classe E é revelado pelo estudo “Brasil em foco”, feito pela Target Marketing, uma das mais conceituadas empresas de pesquisa de mercado do País.
Levando em consideração dados da FGV (Fundação Getúlio Vargas), (IBGE) Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Seade (Sistema Estadual de Análise de Dados), secretarias estaduais e projeções econômicas futuras dos municípios brasileiros, a Target identificou quais as despesas das famílias e quanto elas gastam (ver quadro). O resultado em algumas áreas assusta. É o caso da educação, onde a diferença entre o que gasta uma família pobre e uma rica chega a 651,47 vezes.
A família da doméstica Sueli Maria da Silva, de 35 anos, está na classe E, formada por famílias cujos rendimentos não ultrapassam os R$ 262 mensais. Com seis filhos em casa - um mora com o ex-marido - ela, até o mês passado, trabalhava na casa de uma família e ganhava um salário mínimo. Como não tinha com quem deixar os filhos (o mais novo tem 1 ano e 3 meses) e com medo do Conselho Tutelar a repreender por deixá-lo com o filho de 15, passou a fazer faxina apenas uma vez por semana.
Com isso, seu salário caiu para R$ 120 por mês. A Bolsa Família, de R$ 95, ajuda a complementar a renda da casa. Como não tem casa própria, R$ 100 vão para o aluguel e com comida gasta aproximadamente R$ 150. Uma das reclamações é de não sobrar dinheiro para comprar elementos básicos para a dieta alimentar. "O Leonardo, tadinho, acho que nunca comeu uma fruta". Como as contas não fecham, Sueli não sabe o que fazer e espera encontrar, urgentemente, uma creche para deixar os filhos e voltar às tarefas diárias.
Na outra ponta , está a empresária Luciana*, 52, que mora com os três filhos. Com uma renda familiar em torno de R$ 5 mil a R$ 6 mil, ela tem como maior despesa, que consome aproximadamente 40% da renda, gastos referentes à manutenção do lar. TV a cabo, internet, despesas com a piscina, jardineiro, faxineira, empregada doméstica e condomínio justificam o gasto.
Apesar de ter uma vida bem mais confortável que a de Sueli, Luciana diz que a rotina também é difícil para ela e que luta muito para manter o que tem. Ela conta que as pessoas a olham com olhar de ganância e isso a incomoda. "Tenho uma irmã adotiva, que se casou com um rapaz que não tinha muitas condições financeiras. Uma vez ela me falou que tinha raiva de mim porque eu tinha carro, uma casa boa, etc. Mas isso é resultado de muito trabalho. Lamento por quem não teve as mesmas oportunidades".
Sobre o contraste entre uma realidade e outra, as opiniões são divergentes. "A vida é muito cruel. Uns têm demais e outros não têm nada. Mas não podemos culpar Deus. A culpa é dos homens mesmo. As pessoas não sabem dividir", diz Sueli.
Já Luciana considera que a questão é batalhar. "Deus dá oportunidade, capacidade e inteligência para todo mundo. Ouço muito uma rádio evangélica e direto tem testemunhos de mendigos que viraram empresários. Às vezes, falta emprego, mas têm que procurar, que uma hora aparece. Não dá é para se acomodar".
*O nome foi trocado a pedido da entrevistada
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