‘O Brasil vai ficar para trás’


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Gustavo Ioschpe durante palestra na Unifran: “O professor não pode alegar desconhecimento. Ele sabe como é a profissão antes de entrar, até porque já foi aluno”
Gustavo Ioschpe durante palestra na Unifran: “O professor não pode alegar desconhecimento. Ele sabe como é a profissão antes de entrar, até porque já foi aluno”
<p>Apesar da pouca idade, 30 anos, Gustavo Ioschpe é um dos mais respeitáveis nomes do País quando o assunto é educação. Graduado em ciências políticas e administração estratégica na Universidade da Pensilvânia (EUA) e mestre em economia internacional e desenvolvimento pela Universidade de Yale (EUA), Gustavo tem em seu currículo um Prêmio Jabuti, desenvolve trabalhos para o Ministério da Educação, escreve artigos para a Veja e profere palestras sobre o tema em todo o País. Já foi, também, colunista da Folha de S. Paulo. No último dia 19, esteve em Franca, ondefalou a professores da Unifran (Universidade de Franca).</p> <p><br />Para ele, o pacote da educação anunciado pelo governo Lula “é um belo passo adiante”, mas incapaz de resolver o problema da má qualidade do ensino do País. Além disso, ele diz que o Brasil está perdendo o “bonde da história”, pois enquanto o mundo pensa em universalização do ensino superior, mal conseguimos ensinar as crianças da quarta série do ensino fundamental. </p> <p><br />Sobre as universidades públicas, Ioschpe defende pontos polêmicos. Ele é a favor de que os cursos sejam pagos para as pessoas que podem pagar. Confira abaixo os principais trechos da entrevista exclusiva dada ao Comércio. </p> <p><strong>Comércio da Franca - Pelos resultados do Ideb (Índice Nacional de Desenvolvimento da Educação Básica), 17 das 20 cidades da região tiveram nota abaixo de 5 no ensino fundamental. Este é um problema da região ou é generalizado? Que ações as prefeituras poderiam desenvolver para melhorar os índices?<br />Gustavo Ioschpe</strong> - Este problema da educação é nacional, que se reproduz e se repete basicamente em todo o País, com algumas poucas ilhas de exceções de excelência. Acho que o importante é melhorar o aprendizado e incentivar os professores a adotarem práticas compatíveis e condizentes com a boa educação na sala de aula. Coisas como diminuir o absenteísmo de professores, fazer com que eles prescrevam e corrijam os deveres de casa, que usem o tempo de aula para efetivamente dar aulas e para fazer exposições e não para fazer exercícios.<br />A escolha da diretoria da escola, por exemplo, deve levar em conta critérios objetivos, de qualificação das pessoas que postulam o cargo e não ser indicações políticas. </p> <p><strong>Comércio - Seria responsabilidade dos governos forçar o professor a se adequar a um padrão.<br />Gustavo</strong> - Acho que forçar é um termo muito forte. O que venho defendendo é o que chamo de lei da responsabilidade educacional. Todos os níveis da federação deveriam criar um sistema de incentivos para aquelas escolas que são melhores, para que recebam uma recompensa No nível estadual e federal, acho que esta recompensa deve primariamente ser financeira. No nível dos municípios, acho que pode ser uma equação de setores financeiros e não-financeiros. Enfim, dar prestígio, divulgar boas ações, reconhecer o trabalho dos professores. É impossível forçar os professores, como qualquer funcionário, a fazer o que quer que seja, mas é importante recompensar aqueles que atinjam os objetivos que a sociedade gostaria que a educação atingisse e, na medida do possível, retirar ou pelo menos diminuir a influência dos maus diretores e professores. </p> <p><strong>Comércio - Os professores têm regalias em relação às demais profissões?<br />Gustavo</strong> - De novo eu acho que o termo “regalia” é inapropriado. Acho que tem algumas vantagens na carreira do docente, como abono de falta e períodos de férias superior, e tem desvantagens, como o estresse que advém de lidar com uma sala de aula e um salário em que a progressão não é agressiva, porque é bastante desvinculada da performance. Entretanto, todo mundo que opta por esta profissão opta conscientemente. Toda conversa de que o professor é um coitado e que está sendo massacrado por um sistema é improcedente e o professor sabe como é a profissão antes de entrar, até porque já foi aluno. </p> <p><strong>Comércio - Qual o problema que gera a evasão escolar?<br />Gustavo</strong> - O problema é de falta de qualidade. À medida que o tempo passa, o custo de oportunidade, da criança não estar trabalhando e não estar gerando renda em outras áreas, vai aumentado. Quando a educação é de baixa qualidade, ela toma muito tempo e não agrega muito, na verdade ela não agrega nada. A criança, sua família e o próprio meio empurra a criança para a evasão. A educação é chata, desinteressante, não motiva. O aluno vê a pessoa que passou pelo sistema de ensino e que tem um emprego precário. Por isso, o foco principal de uma política voltada para a redução da evasão é a melhoria qualidade. </p> <p><strong>Comércio - Você uma vez disse que o Brasil estava perdendo o bonde da história. O que você quis dizer com isso?<br />Gustavo</strong> - O mundo está passando nos últimos 15, 20 anos, por um processo de massificação do ensino no ensino superior. Hoje, temos países desenvolvidos que estão próximos da universalização do ensino superior. Enquanto isso, o Brasil ainda não conseguiu nem alfabetizar as suas crianças. Hoje, 55% das crianças na 4ª série estão em nível crítico ou muito crítico em língua portuguesa. Significa basicamente que elas são analfabetas funcionais. Então, estamos em um momento em que o mundo está se descolando do Brasil, que vai ficando para trás de uma maneira acachapante porque não conseguimos nem alfabetizar as crianças. E isso vai ter conseqüência funesta a médio e longo prazo. </p> <p><strong>Comércio - O modelo utilizado pela Coréia do Sul poderia ser utilizado aqui?<br />Gustavo</strong> - Não. Todos os sistemas educacionais que deram certo, na Coréia, Irlanda, Finlândia e Espanha, entre outros, são diferentes entre si. Porque a educação que dá certo é aquela que faz com que o País atinja os seus objetivos. Obviamente, os objetivos dos países são diferentes, a cultura dos países também. E a maneira como esses objetivos são alcançados varia de país para país. Então, seria um contra-senso tentar imitar qualquer tipo de modelo. </p> <p><strong>Comércio - Você conhece alguma proposta de modelo do Brasil que seja viável?<br />Gustavo</strong> - Eu acho que no Brasil não se tem um projeto de nação. E da mesma maneira, não se tem um plano nacional de educação. Na verdade o que ocorre são várias iniciativas esporádicas, até mesmo porque nós temos mais de 5.500 ministros da Educação, já que cada município tem seu secretário, e ele têm grande grau de liberdade na implantação de políticas educacionais. Muitas delas virtuosas, mas que não são políticas nacionais. Comércio - Qual a análise que você faz do PDE (Plano de Desenvolvimento da Educação)?<br /></p> <p><strong>Comércio - É um belo passo adiante, e isso é muito estimulante no Brasil. Nos últimos quatro, cinco anos, temos visto políticas de personagens com retrocessos frente àquilo que se tinha conseguido. Então é muito bom que se esteja agindo como essa prova de alfabetização, foco no ensino básico, a criação do Ideb, a criação de auxílio para reunir os municípios mais pobres, enfim, são todas coisas positivas. A minha única crítica é que não é ambicioso. Apesar de ser um passo pra frente, ele é menor do que poderia e deveria ser dado, tendo em vista a situação realmente preocupante e urgente que é a situação do sistema educacional brasileiro. Comércio - E o que você acha do Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação)? <br />Gustavo</strong> - O Fundeb é uma expansão do Fundef (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental). E a realização do Fundef foi de aumentar a matrícula, porque vinculou a transferência de recursos ao número de alunos. O que ele não fez foi melhorar a qualidade do ensino. Então o Fundeb é uma proposta errada porque a preocupação dele é melhorar a qualidade, sendo que o seu antecessor direto não teve efeito sobre a qualidade. Então se está insistindo numa metodologia que já não deu resultado. O governo está achando que se colocar um pouco mais de dinheiro e abranger mais séries, aí, sim, a qualidade melhora. E eu acho que não melhora. </p> <p><strong>Comércio - Quais são as principais falhas que você nota no ensino superior hoje? <br />Gustavo</strong> - Ele atinge uma parcela muito pequena da população. A causa disso, primeiro, é a baixíssima qualidade do ensino básico. E segundo, a ausência de mecanismos de financiamentos do ensino para pessoas de renda mais baixa, além do alto custo das universidades públicas, que basicamente faz com que elas não possam se expandir. E acho que também a qualidade do ensino superior é baixa, pelos resultados que nós temos do provão, porque todo sistema educacional é falho. É ruim. Então o aluno já chega à faculdade com uma base muito ruim.Então, pra mim, fundamental é melhorar a educação básica. </p> <p><strong>Comércio - E você é a favor da cobrança no ensino superior? E como seria isso?<br />Gustavo</strong> - Para os alunos que podem pagar, sim. Seria como é feito nos Estados Unidos, na Inglaterra, no Chile, na China, na maioria dos países do mundo. A universidade cobra uma mensalidade, oferece um valor que lhe pareça justo e estabelece um programa de bolsa de financiamento para os alunos que não podem pagar. Se o aluno acha que não pode pagar, apresenta declaração de imposto de renda da família, pede um auxílio, vai ter uma autoridade julgando se aquela requisição é procedente e dá uma bolsa na proporção de que o aluno necessita. Funciona muito melhor que o nosso sistema.</p>

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