André, 12, primeiro filho de Áurea e Mauro Sanches, estava com 8 anos quando ganhou uma irmã. Depois de anos pensando no assunto, a família adotou uma criança. Negra, Jovana, 11, passou a fazer parte da família. "Sempre falei em adotar uma menininha. Quando soube da história da Jovana, das rejeições que enfrentou (ela foi devolvida duas vezes pelas famílias adotivas), conversei com meu marido e filho, e decidimos trazê-la para nossa vida", disse Áurea.
Hoje, quatro anos depois, superado o preconceito das pessoas por ela ser negra e eles brancos e a fase de adaptação (a menina chorava muito no começo), a mãe diz estar realizada. "Muita gente questiona porque tenho um filho branco e uma negra. Brinco que ele nasceu durante o dia e ela à noite. Nós amamos a Jovana antes de conhecê-la", disse a manicure, que pensa em adotar mais filhos.
Essa história teve final feliz, mas não é a regra. No dia da adoção, comemorado hoje, ainda há muito o que lamentar. Em Franca, 43 candidatos estão na expectativa de vivenciar experiências como a de Áurea e Mauro. Eles estão na lista do Serviço Social e de Psicologia do Fórum à espera de um filho. São 40 duplas, casadas ou estáveis, dois solteiros e uma pessoa divorciada. Todos os candidatos querem um filho branco. treze deles aceitam pardos e somente um adotaria uma criança negra. A idade exigida pelos interessados é outro dado que explicita o preconceito existente quando o assunto é adotar. Dos 43 inscritos, só sete aceitariam um filho com mais de 2 anos.
Entre os que querem adotar, a grande maioria são brancos; não há pessoas negras na lista de adotantes. A idade média dos interessados é de 37 anos e a renda familiar é de 10 salários mínimos por mês (cerca de R$ 4 mil).
Mais da metade dos interessados é indiferente ao sexo da criança. Ainda assim, meninas são preferidas de cada quatro entre dez pais. "Acredito que é uma questão cultural. Sempre se fala que as meninas são mais companheiras e comportadas", disse Maria Aparecida Goulart, psicóloga do setor de Serviço Social e Psicologia do Fórum, responsável pelos dados.
Na outra ponta, pelo menos oito crianças esperam por novos pais na cidade. Mas o perfil delas é bem diferente do desejado. Têm entre 2 anos e 8 anos e há grupos de irmãos. Ao encaminhar para adoção, a preferência é mantê-los unidos para evitar mais um trauma, além do sofrido pela retirada dos pais naturais. "A adoção se torna difícil depois dos 2 anos. Hoje, fala-se mais sobre adoção tardia, as pessoas estão mais esclarecidas, mas a mudança prática ainda está devagar", disse a assistente social do Fórum, Maria de Lourdes Cuba. Pelas estatísticas, só 16% dos adotantes aceitam filhos com mais de 24 meses. O grau de exigência dos interessados atrasa a adoção. Para "receber" um bebê branco recém-nascido são anos de espera. Neste ano, entre janeiro e abril, o Fórum oficializou 19 adoções.
BOM EXEMPLO
O deputado estadual Roberto Engler (PSDB) faz parte das estatísticas, mas sua história é mais antiga. Há 23 anos, ele e a mulher "ganharam" o caçula Alex, depois dos três filhos biológicos. A adoção do rapaz não foi planejada. Na época, o bebê - que é negro - estava com menos de um mês e sua mãe, que já tinha outros quatro filhos, estava muito doente. Ela era caseira do rancho de Engler. Até que se recuperasse, o casal cuidaria do garoto. Mas o contato com a criança criou afinidade entre eles e, de padrinhos, Engler e a mulher passaram a pais.
A adoção foi oficializada quando Alex tinha 10 anos. "Adotar não é fazer caridade, é uma graça. Sou um homem agraciado com isso.
O interessante é como a adoção contagia. Depois da nossa experiência, três irmãos meus adotaram crianças. Somos todos muito felizes", disse o deputado, emocionado.
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