"Mortais, sejais modestos. É a vossa condição que nega a vossa ambição". Eurípedes. A submissão ao pensamento "primeiro faremos o bolo crescer, para depois, dividirmos", acompanha as políticas públicas brasileiras desde sempre. Dentre as tantas apartações, como a de gênero e raça, existentes na sociedade brasileira, uma delas, a social, é a que mais escandaliza. Não que se possa aquiescer com o racismo ou com a segregação feminina. Entretanto, ao analisar os reflexos da má distribuição de renda, percebe-se que todos saem perdendo.
Não só o negro, a mulher ou o pobre, mas toda a sociedade é alcançada seja pela violência, pela falta de educação ambiental ou pela falta de cidadania, os quais se manifestam tanto nas "Baixadas" como nas "Zonas Sul" de cada cidade brasileira. Interessante que a segregação passa a ser urbana, ou seja, cada um deve saber e conhecer o seu lugar e se sente estrangeiro nos demais. Mas, até que ponto isso é real?
A criminalidade já se instala nas famílias de classe média/alta. As `balas perdidas` não atingem somente as pessoas das periferias, os assaltos à mão armada já acontecem nos locais freqüentados e habitados por cidadãos da classe superior. Dessa forma, as palavras de ordem que sempre foram repetidas aos pobres, "paciência, tudo vai melhorar um dia" já não possuem o valor de antes. Quando um menino da favela diz que quando crescer quer ser bandido, é porque o banditismo ganhou status. E quando o banditismo se torna glamuroso é porque o Estado Democrático de Direito apodreceu. Apodreceu de tanto ser administrado por cidadãos comprometidos com seus próprios interesses e à custa do trabalho e do suor dos que trabalham.
A máquina estatal é uma `cidade dos sonhos` que nada produz de aproveitável para a sociedade, mas que é mantida a um alto custo pela população que trabalha e paga impostos. Enriquece os administradores e empobrece os trabalhadores. Não adiantam discursos no sentido de que o País vai crescer e que a seguir a renda será mais bem distribuída. Não se cresce assim. Setorizar é compartimentalizar, reduzir, linearizar. Nenhum país do mundo que tem a renda melhor distribuída atingiu o desenvolvimento pleno (IDH, desenvolvimento econômico, preservação ambiental, etc), com essa política econômica perversa que se pratica no Brasil, onde se mascara a palavra "pobreza", pelo termo "desigualdade", que nega a "exclusão" e eufemisticamente se explora a expressão "falta de crescimento".
A concentração de renda no Brasil chega a ser obscena, uma vez que todos os olhares e todas as mentalidades se voltam exclusivamente para o setor econômico. A falsa crença de que se o País ficar rico a pobreza e a exclusão irão diminuir implica numa antítese porque se cresce verticalmente e nunca horizontalmente. O rico torna-se cada vez mais rico, o pobre cada dia mais pobre e o fosso que os separa é cada vez mais profundo e intransponível. Não existe crescimento para os lados.
Inadmissível que num País tão rico em recursos naturais, seja tão negligente com a população, preservação ambiental e com a própria soberania. Mais absurdo ainda, que para muitos jovens com idade entre 16 e 18 anos, o primeiro documento que comprova a sua existência seja a Certidão de Óbito, ou seja, nunca foram registrados civilmente. Só depois de mortos recebem identificação. Inaceitável que existam tantos analfabetos diretos, aqueles que não sabem ler e escrever, bem como milhões de analfabetos funcionais, os quais, sequer conseguem entender um aviso ou um pequeno texto. No dizer de especialistas esse é um problema perverso e silencioso que afeta a qualidade e o desempenho nos locais de trabalho e mesmo na vida cotidiana, pois se tornam presas fáceis do sistema.
Todas essas questões juntas massacram o que se esperava da democracia, pois aviltam a legalidade, faz prosperar a criminalidade e perverte o senso de que `todos nascem iguais perante a lei`.
NADIR A. CABRAL BERNARDINO, advogada, formada pela FDF, pós-Graduada em Política e Estratégia e Direito Ambiental
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