As ações da Polícia Federal têm mostrado aos brasileiros uma faceta nova de combate ao crime, até então desconhecida neste País. Personagens cujos costumes e tradições não permitiam imaginar puníveis, foram parar atrás das grades. Tudo se torna ainda mais interessante quando o ilícito combatido é a corrupção, pior mal que pode acometer uma sociedade. Os afoitos anunciam, precocemente, o fim da velha crença de que cadeia foi feita só para pobres e outros desvalidos sociais. Este desfecho, no entanto, ainda depende de muitas variáveis.
No momento em que prende figurões da sociedade, política ou judiciária, a organização policial, paradoxalmente, fortalece-se e se fragiliza. Fortalece-se na medida em que avança sobre entes intocáveis, e torna-se frágil porque, se durante a execução alguns dos policiais têm a ação considerada excessiva, isso pode desfechar poderosas represálias. Este “fio de navalha” é benéfico porque leva ao aperfeiçoamento. Obriga a adoção de práticas mais criteriosas, reduzindo a possibilidade do erro policial.
Nas suas operações de caça a contraventores e criminosos de colarinho branco, a PF têm se valido do serviço de inteligência. Investigações e escutas telefônicas, autorizadas pela Justiça diante da presunção de ilícito, permitem o mapeamento do território e o conhecimento dos componentes da ação criminosa.
Com esses dados, a logística é montada com horários, número de policiais, armamento e recursos ideais para a missão. Resultado: tudo se cumpre sem confrontos, tiros ou feridos e os corruptos vão para a cadeia, cessando sua ação delituosa.
A ação junto à alta roda não é diferente do trabalho em morros e favelas, onde o criminoso está pronto para matar ou morrer. Mas dá o referencial de que, com investigação e inteligência policial, os riscos são menores tanto para os policiais quanto para os envolvidos e os transeuntes, freqüentes vítimas de balas perdidas.
Se for mantida imune a pressões e reações políticas, a Polícia Federal, apoiada pelo Ministério Publico e Judiciário, poderá continuar combatendo a causa de muitos males vividos pela sociedade brasileira e contribuindo para eliminar os efeitos representados pelos “Marcolas”, “Champinhas” e tantos outros criminosos e contraventores surgidos à sombra da impunidade e dos maus exemplos. Tende a ser o grande laboratório e parâmetro para o desenvolvimento das polícias estaduais. Seus métodos, resultados de procedimentos colhidos no exterior e aplicados às condições brasileiras, poderão migrar para a esfera estadual, atendendo às peculiaridades de cada região. Para promover essa grande transformação, os governadores precisam começar melhorando o serviço de inteligência, integrando-o nacionalmente, adquirindo viaturas e armamentos adequados e recompondo o salário dos policiais. A exemplo da Polícia Federal, onde os delegados, agentes e funcionários têm dedicação exclusiva, as polícias estaduais têm de pagar salários compatíveis, que permitam a seus integrantes manter suas famílias sem a necessidade de recorrer ao “bico”.
“Furacão”, “Sanguessuga”, “Navalha” e outras operações realizadas pela Polícia Federal nos últimos meses apresentam-se como sementes da esperança de um país com mais justiça social, e embrião da grande reforma da máquina policial brasileira, relegada à obsolescência durante décadas. Estanca-se a sangria dos cofres públicos e muitos corruptos, ainda não pegos, certamente deixarão a atividade criminosa ao ver a prisão de seus parceiros. Não é demais sonhar até que uma parte dos recursos já roubados possa retornar ao erário e ser empregada para o bem-estar do povo. Vivemos o sonho de melhores dias e a torcida para que ninguém seja capaz de atrapalhar essa que pode ser a verdadeira deflagração da Operação Mãos Limpas no Brasil.
TENENTE DIRCEU CARDOSO GONÇALVES é presidente da Associação dos Policiais Militares do Estado de São Paulo (APOMI)
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