“E nem a morte terá força para me fazer calar". Assim termina o poema "Protesto", de Carlos de Assumpção, paulista de Tietê (SP), mas já definitivamente francano, pois aqui mora há 38 anos. "Eu não me arrependo de nada do que eu fiz, tenho orgulho de tudo o que eu vivi e, se pudesse, faria tudo de novo", afirma Assumpção, em entrevista ao Comércio. Hoje, 23 de maio, o autor comemora seus 80 anos de vida e também muitos outros de poesia, de dedicação, de protesto e de luta por liberdade e ideais da raça negra.
Carlos de Assumpção nasceu em 1927 na cidade de Tietê, interior de São Paulo, terra de artistas como Rossine Camargo Guarnieri e Luís Martins Filho. Seu pai foi Mateus Carlos de Assumpção, jardineiro do município, e, sua mãe, Sebastiana de Sousa, lavadeira de roupas, que possuía o diploma de professora primária. Carlos, seguindo o exemplo de sua mãe, fez, em sua cidade natal, os seus estudos básicos, tornando-se professor.
Com o diploma, foi para São Paulo e devido ao insucesso de conseguir trabalho, experimentou diversos empregos. Depois foi tentar a sorte no nordeste paulista, onde lecionou em uma fazenda de japoneses, no Bairro do Rangue. Nesta época, ele se casa com Jacira Alves de Assumpção, sua primeira mulher, com quem teve os filhos Maria Sílvia, Carlos e Sandra.
De volta a São Paulo, chega a dar aulas na Vila Ré, mas pouco depois se muda para a região de Marília (SP), onde trabalha com crianças no Núcleo Segundo Macuco. É exatamente aí que compõe seu "Protesto", em 1952. "Neste tempo eu fazia parte da Associação Cultural do Negro, cujo presidente era daqui de Franca, Geraldo Campos de Oliveira, jornalista da Assembléia Legislativa, já falecido", relembra ele. Em 1959, vai à capital pedir remoção para Rifaina (SP), onde passa um tempo maior que o previsto. "Eu estava com a idéia de ficar apenas um ano em Rifaina. E não é que acabei me demorando dez?", brinca o poeta, que conta uma história bem engraçada sobre a época em que viveu na cidade próxima a Franca. "Como eu passei esses anos todos aqui, meus amigos da capital pensaram que eu havia falecido.
Chegaram a marcar uma missa em intenção de minha alma", conta ele, gargalhando.
Assumpção sempre foi muito ativo e participou de várias instituições negras paulistas, principalmente da Associação Beneficente José do Patrocínio e da Associação Cultural do Negro. E diz que não vê grandes diferenças entre os tempos de ontem com os dias atuais, no que se refere à condição do negro no Brasil. "O movimento negro tem feito muito pela raça durante estes anos, mas eu não vejo grandes diferenças", analisa.
Versejador, sem se aventurar pela prosa, Assumpção, durante toda a vida, também foi declamador, principalmente de sua obra mais conhecida. "Já declamei muito o `Protesto`. Um dos poemas que o pessoal pede é o `Batuque`, que procura imitar uma dança de mesmo nome lá da minha terra", revela Carlos, casado com Lourdes Augusta do Nascimento há oito anos.
VEREDAS
Um fato importante da vida literária de Carlos de Assumpção foi a participação no Grupo Veredas, que até hoje está em atividade, liderado por Luiz Cruz. Ali Carlos se encontrava com diversos outros escritores para ler e discutir romances. Dele faziam parte, na época, além de Cruz e Assumpção, Regina Helena Bastianini, Nelson Damasceno e outras pessoas que constituíram o grupo durante os seus primeiros oito anos de existência. Hoje ali se encontram Cruz, Regina, Cunha, Yamashita, Eny Miranda e outros interessados pela criação literária. "Nós nos reuníamos principalmente aos sábados, discutíamos literatura, líamos livros", conta o poeta, com saudade dos encontros. Além das reuniões, o Veredas produziu revistas com textos de seus membros, inclusive de Carlos de Assumpção, que na na quarta edição publicou o seu "Protesto". Em 1980, os amigos decidem publicar seu primeiro livro de poemas. A repercussão da obra foi positiva, sendo elogiada por Antônio Zago no jornal Folha de S. Paulo, no Caderno Ilustrada, em 15 de fevereiro do ano seguinte.
Os anos foram se passando e 1997 vai encontrar Assumpção como um dos responsáveis pela Fundação Municipal "Mário de Andrade", incumbida de promover a arte francana. Atualmente, exerce funções no Arquivo Histórico Municipal.
E para o próximo sábado, dia 26 de maio, o Grupo Veredas de Literatura e a Ribeirão Gráfica e Editora preparam o espetáculo A Caminhada do Poeta, homenagem a Carlos de Assumpção. O evento será às 20 horas, no Teatro Municipal.
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