A crise na exportação de calçados atinge uma gravidade que se assemelha à de treze anos atrás. Em junho de 1994, com o lançamento do real, a nova moeda passou a valer muito mais que a anterior na troca pela norte-americana e os exportadores francanos não resistiram aos prejuízos. Muitos faliram, outros quase.
Vende-se no exterior em dólar, recebe-se em real (aparentemente é uma informação óbvia, mas nem todo cidadão sabe disso). Naquela época, a conversão do valor de uma moeda pela outra (o tal de câmbio) detonou o custo de produção do calçado calculado meses antes. O exportador acreditava que o câmbio voltaria à normalidade a curto prazo e começou a trabalhar no vermelho, para manter a clientela. Deu no que deu. O calçadista sabe que recuperar um comprador estrangeiro extraviado é mais difícil do que conquistá-lo. Daí sua disposição em insistir na relação comercial deficitária, impulsionada pela crença que o governo federal tomará providências supimpas, eficazes, para proteger uma indústria altamente empregadora de mão-de-obra. Essa motivação ficou evidente naquela crise e se repete agora.
No entanto, o sacrifício do passado para preservar os principais importadores não valeu a pena. Em 1994, os embarques do calçado francano aos Estados Unidos correspondiam a 85% do total exportado. Despencaram desde então. Em 2006 representaram 53%, segundo levantamento do sindicato calçadista. Não devem passar de 45% neste ano.
Ao desmantelamento das exportações iniciadas em junho de 1994 somou-se no ano seguinte a recessão no mercado nacional, resultando em 50 fábricas fechadas (citamos apenas as formalizadas) e demissões em massa. Franca só não revive hoje este cenário de devastação porque nesse meio tempo conquistou alguns clientes fora dos Estados Unidos e há vendas no mercado interno. No primeiro trimestre deste ano, em relação ao mesmo período de 2006, aumentaram os embarques para Rússia, Alemanha, Espanha, Portugal, Bolívia, Chile, Argentina e Venezuela.
Ficaram inalterados os destinados à Itália, Grécia e outros países. São pequenos volumes, comparados aos negociados com os norte-americanos infiéis; porém, são sapatos de maior valor, o que amortece um pouco os estragos do câmbio.
O fato é que a crise no geral das exportações do calçado de Franca resulta em desastre para a economia da cidade. Esse comércio exterior, iniciado precariamente em 1970 e consolidado a partir da década seguinte, tem a função fundamental de compensar os meses de retração nas vendas internas. Equilibra a balança. Inviabilizadas as exportações, aumenta a oferta de calçados no mercado nacional, embola-se o meio de campo, não cabem dois corpos em um espaço, incrementa-se ao extremo o canibalismo dos tempos normais e parte dos devorados leva consigo milhares de empregos.
Um murro de boxeador peso-pesado enraivecido é o que sentem no fígado, por sua vez, os fornecedores de itens de fabricação (couro, sola, cola, metais, linhas etc. etc.), maquinaria, equipamentos, prestadores de serviços, comerciantes, curandeiros, agiotas (bancos)... É o denominado efeito dominó - atropela até as prostitutas, infelizmente.
SALDO NEGATIVO
As exportações de calçados de Franca somaram 26,228 milhões de dólares no primeiro trimestre, valor correspondente aos embarques de 1,225 milhão de pares. No mesmo período do ano passado o movimento atingira 1,777 milhão de pares e US$ 36,217 milhões. Houve uma queda de 27,58% no faturamento (menos US$ 9,989 milhões) e de 31% nos embarques (-552 mil pares).
Ainda comparando, o preço médio do sapato exportado aumentou 5%, passando de US$ 20,46 para US$ 21,41. Os dados são do Sindifranca.
CRESCIMENTO
O Brasil exportou US$ 1,87 bilhão em couros no ano passado. O Centro das Indústrias de Curtumes (CICBN) prevê para este ano um crescimento em torno de 22%, o que resultará em US$ 2,28 bilhões de faturamento. Hoje o setor produz 45 milhões de peças por ano e exporta 80% da produção.
A demanda internacional por couro brasileiro cresceu nos últimos anos, especialmente pelas indústrias automotivas e moveleiras. “Já estamos próximos de um ponto de saturação”, afirma Luiz Bittencourt, diretor-executivo do CICB. Diante dessa procura, os exportadores reajustam preços sem dificuldades.
Neste primeiro trimestre, comparado ao do ano passado, os embarques aumentaram 9% e a receita cresceu 37%, totalizando US$ 552,44 milhões. Bittencourt observa que as vendas deslocadas para as de automóveis e móveis “é um fenômeno mundial”. Em 2006, esses dois setores consumiram 40% do couro produzido no País, índice que deve aumentar neste ano.
A demora dos governos no repasse dos créditos de ICMS, PIS/Cofins e IPI tem sido um dos obstáculos para os curtumes crescerem, acrescenta o diretor-executivo do CICB. Outro problema é a pequena oferta de peles de caprinos e ovinos, insuficiente para atender à demanda.
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