Crise e criminalidade


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O dólar despencou! Chegou a R$ 1,98, valor inimaginável até bem pouco tempo. Até 1996 trabalhei na área de desenvolvimento de calçados. Lidei diretamente com americanos que solicitavam as amostras e nós buscávamos parceiros na cidade para desenvolvê-las. Estive no setor calçadista por oito anos e pude sentir, na pele, as alegrias e angústias do setor calçadista. Dólar alto, lucro elevado, aumento de produção e vagas de trabalho. Dólar baixo, lucro baixo, cancelamento de pedidos e demissões. No 1994 estive nos EUA por uma semana, participando de feira de calçados, para um cliente específico. Durante a estadia fiquei impressionado com alguns prédios imensos completamente abandonados, quase em ruínas. A minha indignação aumentou quando a pessoa que me mostrava a cidade disse que naqueles prédios funcionavam antigas fábricas de sapatos que foram sendo desativadas com o passar do tempo. Como os americanos não queriam trabalhar em fábricas de calçados e o custo era elevado para fabricação naquele país, decidiram-se por sair pelo mundo e encontrar parceiros para desenvolver e fabricar o que necessitavam. O Brasil surgiu como candidato mas nosso País tinha problemas para desenvolver produtos como os americanos queiram, tudo feito praticamente a mão. O solado de couro tinha que ser robusto e bem acabado. O couro tinha que ser trabalhado com toques especiais. A costura feita à mão era parecida com obra de arte. Até o solado era costurado. Com o passar dos tempos os sapateiros francanos dominaram as técnicas. Lembro-me que, dominados os processos, o Brasil passava a competir com o calçado italiano, no mundo. Hoje, nosso País toma a contrapartida. A China toma mercados. Com a redução do valor do dólar a situação de Franca e demais cidades cuja economia está ligada ao sapato se torna difícil, pois, na falta de mercado externo, volta-se a indústria para o mercado interno e este, por incontáveis problemas, não consegue absorver a produção. Alegam alguns que não dá para reduzir mais custos de produção. Escrevo porque tenho notado que Franca está deixando de ser uma cidade industrial para ser uma cidade prestadora de serviços e se algo não for feito com muita urgência, em breve estaremos revendo aqui em Franca a mesma cena que tive das fábricas nos EUA. Por extensão lógica, a massa de desempregados vai aumentar. Gente ociosa, sem caminhos até para as coisas básicas da vida será candidata ao crime e à violência. Aliás, o aumento da criminalidade já começa, aqui, a atingir números alarmantes. O crime sempre existiu e existirá. Há um número de tolerância aceito pelas autoridades. Porém, esse número, inclusive de crimes praticados com violência contra as pessoas e bens (roubo e latrocínio = roubo + morte) vem sendo praticado frequentemente. Tenho, para mim, que tal limite de tolerância, em nossa cidade, já está sendo atingido. Aceitar as mudanças econômicas da cidade sem se preocupar com estes parâmetros é algo que precisa ser trabalhado com urgência. Os poderes públicos, sindicatos, sapateiros e população, precisam começar a ter noção dos efeitos que a mudança na economia pode causar em nossas vidas e na sociedade. Se Franca deixar de ser cidade industrial e se tornar uma cidade comercial ou de serviços vai-se exigir sacrifícios desumanos da população, pois quem trabalha hoje com foco no calçado terá de aprender técnicas e profissões novas. Alguns, de meu convívio pessoal, excelentes sapateiros com nível técnico elevado, desempregados porque seus salários são considerados altos, têm encontrado inúmeras dificuldades para sobreviverem ou problemas graves para se adequarem a novas atividades. A crise do sapato não é um problema de alguns poucos. É muito mais grave. É um problema de nós todos, sem exceção. ACIR DE MATOS GOMES é advogado com atuação em Tribunal de Júri, corretor de imóveis, adesguiano e palestrante

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