‘Marcela não tem vida, tem sobrevida’


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"A Marcela não pensa, não ama, não ouve, não sente, não enxerga e é incapaz de se relacionar. Na verdade, não pode ser considerada uma vida humana, apenas biológica". A afirmação é de um dos maiores especialistas em genética do Brasil, professor geneticista da USP (Universidade de São Paulo) e primeiro médico a conseguir uma autorização de aborto para bebês anencéfalos no país, Thomas Gollop. Para o médico, a vida de Marcela de Jesus Galante, que nasceu sem cérebro em Patrocínio Paulista, é uma tragédia. "Essa menina não tem capacidade para viver, apenas continua respirando. Isso é muito triste porque jamais ela será um ser normal". Marcela neste domingo completa seis meses. Contrariando todas as previsões médicas, ganhou alta do hospital e hoje vive em uma casa no centro de Patrocínio. "Ao contrário da maioria dos anencéfalos, ela conseguiu desenvolver a ponte (parte do sistema nervoso localizada próximo ao cerebelo na nuca), que é responsável por boa parte das funções básicas do organismo, como respirar por exemplo. Só por isso tem sobrevivido", explica Gollop. O médico examinou as duas tomografias feitas na cabeça da bebê e observou fotos de seu tamanho atual. "Ela tem uma estrutura cerebral completamente alterada do ponto de vista anatômico. Tem massa encefálica completamente desorganizada e incapaz de ter alguma função. Não tem caixa encefálica (crânio). Por isso, sou categórico ao afirmar: essa criança não pensa, não ama, não ouve, não sente... Para os leigos, é como se ela tivesse morte cerebral. Sua capacidade afetiva e intelectual é zero." Gollop não se arriscou a dar um prazo para a vida de Marcela, mas disse que o tempo de sobrevivência da anencéfala será curto. "A previsão em medicina é sempre muito complexa. Tentar prever quanto vai durar uma vida, se um dia ou um mês, é um absurdo sempre. Mas no caso da Marcela, o que ela tem não é vida; é sobrevida, que logo deve ser encerrada". Segundo o médico, o corpo vai solicitar funções mais complexas e seu tronco cerebral (ponte) não terá como responder, o que deve provocar a falência dos órgãos e consequentemente a morte. "Outra possibilidade é a infecção, sua massa encefálica está exposta e sujeita aos riscos do meio ambiente. Ela pode ser infectada e acabar morrendo". Sobre a polêmica em torno do aborto em caso de anencefalia, Thomas Gollop defende a legalização. "Tenho total respeito pela opção da mãe de Marcela, mas acho que ter ou não um filho sem cérebro, com tantos problemas como os desta criança, deve ser uma opção da mulher e não uma obrigação. Cabe a ela decidir se quer dar vida a um ser nestas condições. Defendo o aborto porque sou amplamente favorável a liberdade de escolha"

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