<p>Em rápida visita a Franca, na quinta-feira, o eslovaco Ivan Král’, diretor-executivo da Unido (Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial), percorreu indústrias de calçados, além do sindicato patronal da categoria e a escola do Senai. O objetivo foi conhecer a produção de calçados da cidade para elaborar um levantamento sobre os motivos da crise que assola o setor e elaborar uma proposta que será enviada ao governo federal com projetos que podem colocar de novo as fábricas francanas no azul.</p>
<p><br />Para isso, Ivan diz que o setor precisa de inovações tecnológicas e de maior produtividade, que será conseguida através de união e cooperação dos empresários, por meio de um arranjo produtivo. Para isso, porém, ele sinaliza: “ </p>
<p>Indústria de Franca tem de sair do passado e se modernizar”. Na última sexta-feira, Ivan seguiu viagem para Gramado, onde abre amanhã o 16º Painel do Couro e de Produtos de Couro da Unido, que reunirá especialistas de todo o mundo. </p>
<p><br />Confira abaixo os principais trechos da entrevista concedida com exclusividade ao Comércio. </p>
<p><strong>Comércio da Franca - Qual o objetivo da visita a Franca?<br />Ivan Král’</strong> - O objetivo principal é preparar uma proposta de ajuda técnica para a indústria de calçados. Seria uma ajuda técnica que também vai abranger um âmbito tecnológico. </p>
<p><strong>Comércio - O que seria esta ajuda?<br />Ivan</strong> - Essa ajuda vai abranger as indústrias de calçados, principalmente as pequenas e médias. É um suporte técnico e tecnológico no âmbito de treinamento de recursos humanos. A Unido tem condições inclusive de trazer “experts”, principalmente europeus, que possam oferecer estes treinamentos nas áreas em que as indústrias de Franca sentem estas carências. Além disso, tem as facilidades comuns que poderiam oferecer às indústrias, principalmente pequenas e médias. A intenção é oferecer facilidade comum a todos. A Unido trabalha com arranjos produtivos locais, ela oferece este suporte. </p>
<p><strong>Comércio - A intenção é qualificar a mão-de-obra para ter uma produção de maior qualidade?<br />Ivan</strong> - Esse suporte compreende o fortalecimento da indústria para que ela se torne mais competitiva, principalmente na questão de qualidade, para poder enfrentar estes tempos difíceis que a indústria, principalmente a francana, está passando. Um outro membro da Unido, o brasileiro Miranda da Cruz, diretor do setor responsável pela agroindústria, já veio ao Brasil para fazer um levantamento de algumas deficiências enfrentadas pelo setor calçadista do país. </p>
<p><strong>Comércio - O que foi detectado neste levantamento?<br />Ivan</strong> - Tem principalmente a questão de suporte financeiro e a carência tecnológica. Eu vim especificamente para fazer estes contatos com as indústrias e um levantamento mais detalhado e específico. Este levantamento vai gerar a apresentação de um plano de trabalho a ser desenvolvido com as indústrias locais.<br />A partir de segunda feira (amanhã) vai ocorrer o painel (sobre o setor de calçados, em Gramado). Tudo isso que ele está levantando em Franca (tecnologia, mercados, designers, falta de financiamento) também fará parte de um amplo projeto que vai sair de Gramado. Lá vão estar calçadistas e governos de Espanha, Itália, Holanda, Colômbia e Venezuela, entre outros. Será discutido realmente o que está acontecendo no setor calçadista no Brasil em relação ao mundo. </p>
<p><strong>Comércio - Existe algum aporte financeiro da Unido para Franca?<br />Ivan</strong> - A Unido propriamente não dispõe de fundos para oferecer. Ela viabiliza, tenta formas, instituições e contatos com outros países e organizações que têm fundos e possam destinar recursos para cobrir estes projetos. Funcionaria com um facilitador. <br />A Unido conhece e sabe onde há fundos para ajudar países em desenvolvimento. Ela já tem experiência neste sentido. Como exemplo, tem alguns países da África que conseguiram uma ajuda efetiva. Uma outra preocupação é a questão de melhorar a qualidade e a competitividade, justamente por causa dos asiáticos. </p>
<p><strong>Comércio - O setor calçadista diz que na situação atual eles não têm saída: ou abaixam a margem de lucro e têm prejuízo ou param de exportar. Qual a alternativa para sair desta sinuca?<br />Ivan</strong> - É necessário a indústria tentar o aumento da produtividade, não da produção. E este aumento de produtividade vai envolver uma série de fatores, inclusive passando pelo ponto de economia. Seria economia de energia, utilização dos próprios dos custos. O fabricante vai precisar de ter uma visão neste sentido. E outra coisa: fatalmente vai passar pela diminuição da mão-de-obra. Com as tecnologias, vai precisar reduzir custo. <br />Tem ainda a negociação dos clientes. Ele chega para o fabricante e diz: posso pagar US$ 50. É isso que o cliente vai estabelecer para o par de calçados. E, automaticamente, o fornecedor, que neste caso seria o fabricante, vai ter a necessidade de se adequar a esta situação.<br />Uma maneira de ajudar principalmente as pequenas indústrias na redução dos preços seria a criação destas facilidades comuns a todos, que é a proposta da Unido. </p>
<p><strong>Comércio - Como seria esta facilidade?<br />Ivan</strong> - Seria com o arranjo produtivo local. Formar grupos de pequenas e médias empresas com interesses comuns. Você pega um grupo de 10 empresas, elas têm o mesmo fornecedor, mesmo tipo de couro, mesmo adesivo. É isso que pode ser um grande redutor de custo. Você pode, em conjunto, reduzir custo.<br />Eu ainda preciso de mais detalhes para formar uma opinião concreta para que possamos formular a proposta. </p>
<p><strong>Comércio - É possível competir com a China e Asiáticos?<br /> Ivan</strong> - Acredito que sim. Todos os países têm suas vantagens e suas desvantagens. O Brasil tem que aproveitar quais são as suas vantagens. Os países e as culturas são diferentes, mas você deve aprender o que é necessário com eles também. É claro que vocês praticam (a produção) de forma diferente, mas vocês têm muitas vantagens. O Brasil tem mostrado nos últimos dois anos que tem condições de competir. É um dos únicos países dotado realmente de condições de continuar competindo neste mercado, que é o de exportação de calçados. </p>
<p><strong>Comércio - Quais são as vantagens do Brasil?<br />Ivan</strong> - A moda brasileira é muito bem vista no mundo. O designer agrada e a qualidade também é alta. Não se pode competir com a China em preço, mas é possível competir em qualidade e pequenos volumes. Além disso, o mercado interno é muito duro, difícil, e os fabricantes conseguem sobreviver muito bem nesta dureza. Então, estão bem preparados para competir no mercado internacional. Se tem fraquezas em uns pontos, são fortes em outros. </p>
<p><strong>Comércio - O governo diz que não vai intervir no câmbio. A posição é correta? E o que poderia ser feito por ele para amenizar a situação?<br />Ivan</strong> - É difícil emitir uma opinião, apesar de eu ter conhecimento de algumas situações. Na minha visão, o governo tenta dar um suporte, tenta proteger a indústria nacional. A Unido tem, com o estudo que estão fazendo, condições de fazer algumas recomendações e sugestões em âmbito político de como as inovações poderiam ser organizadas. </p>
<p><strong>Comércio - E que recomendação você daria hoje?<br /> Ivan</strong> - É muito pouco tempo para emitir uma opinião neste âmbito político. </p>
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