Futuramente, o dia 24 de janeiro de 2007 será reconhecido como o dia da irresponsabilidade monetária, o início efetivo da segunda onda de destruição da indústria e do emprego industrial brasileiros.
Naquele dia, reunido em Brasília, o COPOM (Comitê de Política Monetária) decidiu reduzir o ritmo de queda da taxa Selic para 0,25 ponto percentual. Eram sete os membros do Copom: Afonso Sant’Anna Bevilaqua, Alexandre Antonio Tombini, Antonio Gustavo Matos do Vale, Mário Magalhães Carvalho Mesquita, Paulo Sérgio Cavalheiro, Paulo Vieira da Cunha e Rodrigo Telles da Rocha Azevedo, além do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Anotem os nomes. Quatro desses sete diretores votaram pela redução da queda dos juros, de 0,5 para apenas 0,25 ponto por reunião.
Não foi apenas o fato do anúncio ter sido feito poucos dias após o lançamento do PAC (Plano de Aceleração do Crescimento), nem o fato de todos os indicadores de inflação apontarem uma situação de plena normalidade.
Era o fato de, tecnicamente, ter-se uma situação internacional de amplíssima liquidez, a perspectiva de melhoria do “rating” do Brasil (o que ampliaria o fluxo de dólares para o País) e o mercado estar com o dedo no gatilho, esperando um sinal do BC para avaliar se aumentaria as apostas na desvalorização do dólar.
Há muito tempo as aplicações de renda fixa no Brasil haviam se tornado a menina dos olhos do mercado internacional. Têm-se dois tipos de ganho: taxas de juros extraordinariamente elevadas e desvalorização do dólar. Se o investidor aplica com o dólar a R$ 2,20 e resgata como dólar a R$ 2,00, o diferencial é ganho dele.
O mercado havia fixado dois pisos psicológicos para reduzir as aplicações em dólares no Brasil: ou o dólar abaixo de R$ 1,90 ou a taxa Selic perto dos 10%. Com meio percentual de queda, se chegaria mais rápido a esses 10%. Quando o BC reduziu o ritmo de queda para 0,25 indicou claramente para o mercado de que o prazo para chegar aos 10% seria esticado. Com essa folga, começou o ataque apache.
Os efeitos se fizeram sentir imediatamente, quando o dólar começou a deslizar para baixo, e não mais parou. Depois, foi apenas esperneio, com o BC comprando dólares para impedir a aceleração da queda, ou montando operações onerosos para o Tesouro. Essa agonia perdurou até esta semana, quando o BC jogou a toalha, o dólar caiu abaixo dos R$ 2,00 e parece caminhar inexoravelmente para R$ 1,80 ou menos.
Os impactos sobre a economia serão sentido por anos. No último ano, real caro e invasão chinesa já haviam provocado mudanças substanciais em muitos setores da economia. Sem condições de competir, muitas empresas descobriram o caminho da China, e passaram a adquirir insumos, depois componentes mais elaborados e, finalmente, produtos completos da China, Vietnã, da Ásia em geral. Conseguiram sobreviver ao câmbio apreciado, mas praticamente abdicando de sua condição de indústria, despedindo trabalhadores, abrindo mão de investimentos, de pesquisa, de design.
Todo esforço agora, será apenas para impedir um aprofundamento ainda maior do estrago. Depois que o câmbio despenca, não tem caminho fácil de volta.
MEIRELLES E O CÂMBIO - 1
Na sexta-feira, com meses, meses e meses de atraso, o presidente do BC admitiu que o Copom deve levar em conta a taxa de câmbio. “Evidentemente, se muda o patamar da taxa de câmbio de uma reunião do Copom para outra, isso afeta as projeções”, disse ele. Explicou que o BC usa dois tipos de modelagem, uma do câmbio para a próxima reunião do Copom, outra para o final do ano seguinte.
MEIRELLES E O CÂMBIO - 2
Antes de consumado o desastre, sempre que alertado de que a política de juros do BC poderia provocar problemas de monta com o câmbio, Meirelles repetia incessantemente o bordão de que “o BC não tem meta para câmbio”. A estupidez de achar que pode se trabalhar com apenas uma meta para juros, e não entender que afeta todos os demais indicadores, levou o País a essa sinuca de bico, da qual não sairá tão cedo.
EMPREGO E BICO - 1
Enquanto pululam estatísticas tentando mostrar como o Brasil está melhorando, levantamento da Unicamp comprovou que metade da população economicamente ativa do Brasil ou precisa fazer muita hora extra, ou tem mais de um emprego para poder completar a renda. 4,2 milhões de brasileiros têm dupla ou tripla jornada. A procura pelo segundo emprego cresceu 57% nos últimos seis anos.
EMPREGO E BICO - 2
Segundo o economista Márcio Pochmann, a balança do emprego é a seguinte: de 1999 a 2005 foram criados 21 milhões de empregos pagando menos que dois salários mínimos; e eliminados 6 milhões de postos de trabalho que pagavam mais. O resultado são 15 milhões de novos empregos com baixos salários. Sete milhões de aposentados e pensionistas prosseguem trabalhando. Sem dupla jornada, poderia haver 4,5 milhões de empregos a mais.
UM MINISTRO TRAPALHÃO
Depois de decretar a morte de empresas “ineficientes”, de anunciar apoio ao setor automobilístico, onde trabalhou, o Ministro do Desenvolvimento Miguel Jorge tentou retificar a declaração dizendo que “só morre quem quer”. Inventou uma nova categoria de empresa: a suicida, que só morre porque quer. Como coisa que enfrentar valorização de 40% do real em alguns anos fosse tarefa banal e corriqueira.
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