Doenças psicossomáticas


| Tempo de leitura: 4 min
Em comunicado recentemente divulgado pela OMS (Organização Mundial de Saúde), as doenças mentais e psicossomáticas figuram como motivo de preocupação em todo o mundo. Em comunicado recentemente divulgado pela OMS (Organização Mundial de Saúde), as doenças mentais e psicossomáticas figuram como motivo de preocupação em todo o mundo. A Organização projeta que ‘em 20 anos, as principais causas de adoecimento serão as de desordens de origem psicossomática, a depressão e uso de drogas’. Entende-se como somatização o processo em que conflitos psíquicos provenientes ou não de estressores externos são traduzidos corporalmente, isto é, o sujeito vivencia e comunica suas angústias de forma somática. Para o psicanalista J. A. Ávila, o sintoma psicossomático pode ser visto como um capítulo da história do sujeito que não pôde ser escrito psiquicamente, e que tomou a forma de um hieróglifo inscrito no corpo. O processo somático ocupa o lugar do processo psíquico: no sintoma psicossomático uma questão subjetiva se apresenta, ao invés de se representar, tratando-se, portanto, de uma tentativa mesma de sobrevivência. Trocando em miúdos, aquele sofrimento que não se consegue expressar ou elaborar aparece sob a forma de dor ou degeneração em alguma outra parte do corpo. Somatização na infância O papel do cuidador (em geral a mãe) na incidência de somatizações em crianças é decisivo, uma vez que é ela quem nomeia e confere valor a tudo o que ocorre ao redor de seu filho. Sem isso, a criança, à mercê dos parcos recursos que possui, precisa lançar mão de seu próprio corpo como forma de tentar resolver as fantasias ou os conflitos que experimenta. Especialmente nas situações que são por ela vivenciadas como ameaça de abandono ou no abandono real, a criança volta a reagir de maneira primitiva, via corpo, como meio de comunicação e de defesa. É como se ela só conseguisse despertar o interesse, obter afeto e cuidados de que necessita por meio de reações físicas. A implicação disto no futuro desta criança espelha-se nas respostas dos adultos diante de seus sintomas. Privilegiando as demandas assim apresentadas, corre-se o risco de reforçá-las, transformando-as num padrão perverso e num recurso adaptativo que fatalmente a levará posteriormente à opção somática frente as dificuldades. O melhor, em situações semelhantes, é buscar ajuda terapêutica para a criança e orientação sobre as formas de lidar com o que ela apresenta. Há, na somatização, vários vieses que têm de ser analisados caso a caso. Por exemplo, aquela em que a utilização do corpo aparece como meio de autopunição, oriunda de fantasias de culpa - muito comuns em crianças. Essa situação representa uma reação de defesa ao estresse proporcionado por algum conflito íntimo. Assim, sentindo que deve ser punido por alguma razão, em geral fantasiosa, o sujeito se impõe ao sofrimento pela doença. Uma outra ocorrência (entre tantas) em que se verifica a produção ou agravamento de doenças físicas é a ‘desistência depressiva de viver’, em que o indivíduo literalmente permite que a doença o assole. Dois dos mecanismos muito presentes nas somatizações, de forma geral, são a identificação e a conversão. O primeiro diz respeito a sentir-se como o outro, isto é, tomar algo de outra pessoa como seu, identificar-se com o que está posto. Na conversão, o indivíduo sente-se de fato doente, acredita-se doente, e dramatiza, exagera sua doença teatralmente, em espasmos, desmaios, dores lancinantes. Os tratamentos psicodinâmicos propõem, grosso modo, a busca de outras formas de expressão do afeto (sofrimento) ligado ao desencadeamento do sintoma como forma comprovada de alívio do mesmo. VIOLÊNCIA Em foto que chocou a cidade, o Comércio retratou, no início da semana, o espancamento sofrido por uma bancária francana, por assaltantes em sua casa. Não é o primeiro caso nesta cidade, de criminosos muito jovens que se valem de expedientes de crueldade para com suas vítimas. Há pouco tempo se noticiou o roubo a um supermercado na região central em que os bandidos chutavam e agrediam verbalmente seus reféns. Embora muito se fale na banalização (real) da violência, há algo em sua visão e proximidade que nos horroriza, especialmente porque o ato violento carrega qualquer coisa de explicitamente irreversível e irrepresentável, refletindo o fato de que não há realmente capacidade de interdição nas leis que criamos para vivermos em sociedade. A violência nos escancara em nossa fragilidade diante do outro. DESENRAIZAR-SE Na vertente do criminoso, a filósofa Simone Weil contribui com uma reflexão interessante, a se somar, claro, com várias outras miradas e pensamentos, atribuindo a violência a um suposto desenraizamento que tateia motivações como inveja. ‘O desenraizamento é evidentemente, a mais perigosa doença das sociedades humanas, porque se multiplica a si própria. Seres realmente desenraizados só têm dois comportamentos possíveis: ou caem numa inércia de alma quase equivalente à morte, (...) ou se lançam numa atividade que tende para sempre desenraizar, muitas vezes por métodos violentíssimos, os que ainda não estejam desenraizados ou que o estejam só em parte’. CURSO O Centro de Estudos Psicanalíticos de Franca inicia, no dia 26 de maio, uma série de quatro encontros com o psicanalista Paulo de Moraes Mendonça Ribeiro, da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e de Ribeirão Preto, sobre o tema ‘Desenvolvimento Emocional Primitivo - Introdução ao Pensamento de Donald W. Winnicott’. Quem quiser participar ou conhecer melhor a proposta deve ligar para o número 3721-3198.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários