Calçadistas exportam abaixo do custo para sobreviver


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Trabalhadores em linha de produção da cidade: dólar barato prejudica as importações e faz indústrias da cidade trabalharem no vermelho para manter mercado internacional
Trabalhadores em linha de produção da cidade: dólar barato prejudica as importações e faz indústrias da cidade trabalharem no vermelho para manter mercado internacional
Comprar matéria-prima, contratar funcionários, produzir e vender por um valor maior do que o custo de fabricação. Essa norma básica para a saúde financeira das empresas não vem sendo cumprida pelo setor calçadista de Franca. Em crise devido ao valor baixo do dólar - que fechou ontem a R$ 1,95 - os calçadistas têm sido obrigados - literalmente - a pagar para exportar. Levantamento feito pelo Comércio demonstra que, em média, as empresas da cidade que exportam têm recebido, pelos produtos, apenas 90% do que gastam para produzir. É o caso da Carmen Steffens, que emprega mais de 800 funcionários e produz 2 mil pares por dia - sendo 40% deles para a exportação. Com custo médio de R$ 150 para fabricar um par de sapatos, a empresa tem sido obrigada a vender seu produto a US$ 70 (ou R$ 136,50). Em resumo, ao exportar, a empresa tem um prejuízo de R$ 13,50, ou 8,7% do que o sapato custa. Ela não é a única. Sob condição de não ter o nome divulgado, duas outras gigantes dos calçados revelaram seus números. Em um dos casos, as perdas chegam a 12,25%. Isso significa que, para cada R$ 100 consumidos na produção, apenas R$ 87,75 voltam aos cofres da empresa. Na outra empresa, o percentual é de 7,75%. Economistas ouvidos pelo Comércio consideram que trabalhar no vermelho é a única opção para as indústrias que querem manter o mercado exterior. O grande problema, segundo os especialistas, é o tempo. Se trabalharem no vermelho por muitos meses, parte das indústrias pode não conseguir suportar o tranco e corre o risco de falir. Em grande medida, foi o que aconteceu com a Samello. Em 2004, a empresa registrou gastos com produção maiores do que receita de vendas. Ou seja, pagava para produzir. “É uma lógica perversa: se trabalham no vermelho para manter mercado, podem falir. Se aumentam o preço, perdem mercado”, afirma o economista Antonio Vicente Golfeto. Já para Hélio Braga Filho, também professor de economia, o problema é grave e o setor precisa de auxílio do governo. “Eles estão exportando, mas com muito sacrifício. O governo precisa ficar atento e definir algum tipo de política que alivie os problemas”. A crise, porém, não atinge só grandes empresas. Micro e pequenas, como a Calçados Meneghetti, já sentem na pele os efeitos do dólar baixo. Reginaldo Meneghetti, dono da empresa, afirma ter prejuízos mensais de R$ 80 mil. Ele produz cerca de 300 pares por dia. “Em um mês acaba o projeto de produção. Aí, vou encerrar a exportação e, quem sabe, a produção”, diz. Situação semelhante vive Josino Gonçalves, dono da Abruzzo. Sem revelar números, ele afirma ter reduzido as exportações para 3% do que exportava há quatro anos. “Trabalho com o mercado interno para suprir a queda nas exportações. Essa é a saída”, disse. REPERCUSSÃO Para os dirigentes de classe, o futuro próximo será ainda pior. O presidente da Abicalçados (Associação Brasileira de Calçados), Élcio Jacometti, diz que o empresário está em uma encruzilhada. “Se estava ruim, vai ficar pior. O problema é que você perde mercado ou toma prejuízo. Quanto mais o dólar cair, mais vamos perder”, diz. Já o presidente do Sindicato da Indústria de Calçados de Franca, Jorge Félix Donadelli, acredita que a desvalorização dura ao menos mais seis meses. “Alguns economistas trabalham com previsão de que o dólar chegue até R $1.90 até o meio do ano. Depois disso, ele pode voltar a se valorizar e as coisas podem melhorar um pouco”.

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