Preocupação e medo


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Ser criança é achar que o mundo é feito de fantasias, sorrisos e brincadeiras. Ser criança é comer algodão doce e se lambuzar. É acreditar num mundo cor de rosa, cheio de pipocas. Por mais que os anos lhe pareçam pesos acrescentados à sua bagagem, você nunca esquecerá de uma caixa cheia de brinquedos. Ainda que sua alegria de hoje não seja a mesma dos anos primeiros, jamais lhe será possível esquecer como era sorrir sem medo de ser feliz. Mesmo que decepções tenham abalado sua confiança nos semelhantes, vez ou outra você se lembrará de alguém pequenino que há muitos anos lhe deu um beijo melado numa festa de aniversário. Quando criança, eu vivia sofrendo quedas. Ora de árvores em que trepava para roubar frutas nos quintais dos vizinhos, ora de cavalos, cujos donos nem conhecia, que viviam soltos nos pastos da minha gloriosa Franca do Imperador, pastos estes de saudosas memórias e que se transformaram, como num toque mágico, em bairros nobres, repletos de lindas moradias. Lembro também dos tombos nos inúmeros campos de futebol que existiam em todos os lados da cidade de 80 mil habitantes, hoje com mais de 320 mil moradores. A ‘molecada’ nem sonhava que um dia inventariam a televisão com desenhos animados, videogame, computadores com seus jogos eletrônicos, enfim, uma parafernália de novidades que acabariam por transformar as ruas outrora poeirentas, os ‘campinhos’ de futebol, os velhos pastos e riachos de águas claras em autódromo para ‘assassinos’ do volante atropelarem e matarem velhinhos indefesos. Com o tempo, aprendi que nós vivemos uns para os outros, não obstante nem sempre o que oferecemos recebemos em troca. Às vezes tiram-nos mais do que podemos dar, nos roubam, nos humilham. Costumamos nos embriagar pela velocidade, pelo celular com câmera fotográfica, pelo culto do corpo, pelo televisor de 29 ou 42 polegadas, pela casa na praia, pela chácara ou fazenda, por mais um imóvel na cidade, sabe Deus para quê! E nessa embriaguez passamos a ser dominados pelo vício de consumir, nem que para isto tenhamos de corromper e nos tornar corrompidos. Aos 59 anos, completados hoje, ainda não sei o que é a felicidade que todos ou quase todos buscam como a um tesouro e por ela sacrificam a saúde, a reputação, a liberdade, já que a associam a um bem material. Por ignorá-la, e não saber ao menos o que representa, sou despossuído de ambição. Valorizo a camaradagem, o esforço, o objetivo alcançado, as pessoas que executam com perfeição uma arte, mas este juízo eu pratico na contemplação do seu trabalho, me absorvendo na leitura, na admiração de uma criação artística, de um personagem, do enredo de uma história, de uma música ou de um jogo de futebol. Valorizo modelos de valores humanos e espirituais, símbolos da realidade dos deserdados que vivem esmagados pela miséria. A injustificável seriedade com que vivemos adultamente as coisas só me parece sinal de que algo vai mal, que a insegurança, a miséria ou a violência nos ameaçam, exigindo que fiquemos alertas, espertos demais para sonhar. Mas vai me dizer que essa vida, cheia de preocupação e medo, isso é que é a tal ‘vida adulta’? Será que é para isso que nos tornamos adulto? Sugiro que deixemos explodir toda a nossa doçura! Que consigamos não prender o choro, não conter a gargalhada, não esconder tanto o nosso medo, não desejar parecer tão invencível. E que possamos ser não só razão, mas também coração, não só um escudo, mas também sentimento. BANCÁRIA ESPANCADA ‘A população precisa ficar em alerta. O perigo existe e a violência está aí. É preciso ficar trancado em casa’. Frase pronunciada pela bancária Rosa Santa Batista e publicada pelo Comércio no último final de semana. A bancária, de 47 anos, foi barbaramente espancada em sua casa por três marginais, já presos, numa ação rápida da polícia. Rosa ainda tem marcas do espancamento que sofreu pelo corpo. Jogada ao solo, indefesa, recebeu dezenas de pontapés e teve as costelas quebradas. A foto da bancária publicada neste jornal chocou a população francana, assustada com tamanha violência. Um dos três animais presos é maior de idade. Os outros dois são menores. Logo voltarão às ruas e farão novas vítimas. Então pergunto: até quando políticos que pregam ‘filosofias de almanaque e de nada entendem vão deitar cátedra?’ Até quando a ‘menoridade’ de 18, que é de 1940 vai prevalecer? Quantos mais vão ser vitimados pelos ‘menores’ sem que haja punição efetiva? Os ‘menores’ de hoje são iguais aos de 1940? Não é justo nem humano que aqueles escolhidos pelo povo para conduzir seu país, lamentem e decretem ‘guerra’ aos criminosos apenas quando essa barbaridade atinge alguém em evidência. Estamos assolados pela barbárie. Em Franca, São Paulo, Rio, em toda parte. Tranqüilidade popular nos centros urbanos e no campo implica segurança e esta, por sua vez, resulta de bandidos na cadeia e policiamento eficiente nas ruas. Este é o resultado de qualquer equacionamento montado em obediência à Declaração Universal dos Direitos Humanos e ao Artigo 5. º da Constituição Federal, que nos garantem o direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal. FALTA DE RESPEITO Domingo, Dia das Mães. Fui ao Cemitério da Saudade, no centro de Franca, prestar minha homenagem àquela que me colocou no mundo e hoje descansa num jazigo da família. Não consegui depositar no túmulo o buquê de flores que carregava. Duas tábuas enormes cobriam o jazigo. Foram atiradas ali, certamente, por um funcionário relapso, que não tem respeito pelo sentimento alheio. O pior, ninguém foi encontrado para dar explicações ou mesmo retirar as pesadas tábuas, serviço que acabei fazendo. Uma vergonha o abandono em que se encontra o Cemitério da Saudade, invadido à noite por vândalos, ladrões, prostitutas e travestis e durante o dia administrado por incompetentes.

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