A discussão sobre o câmbio entrou no campo dos dogmas sagrados. Acho que isso é efeito da recente visita do Papa Bento XVI ao País. Confira as verdades intocáveis.
1. “A apreciação cambial era algo inevitável, e os líderes industriais que não prepararam seus associados para esse quadro ainda serão cobrados por sua omissão”, como coloca meu amigo Celso Ming em sua coluna de anteontem no Estadão.
Ora, inevitável para quem? Apreciação ou desvalorização cambial não é um dado absoluto, que afeta todas as moedas. Se uma moeda está se apreciando, é em relação a outra moeda que se desvalorizou. É evidente que desvalorizar ou valorizar moedas depende basicamente da maneira como a política econômica atua sobre os fatores de influência no câmbio.
2. Essa história de que medidas de controle de capitais “seria como explodir a panela de pressão, com o feijão indo parar no teto”, como diz o economista Paulo Leme em entrevista ao Estadão, faz parte dos clichês que comovem, e não tem base factual.
Há diversas maneiras de conter o fluxo de dólares: fixar tempo de permanência para o capital especulativo, reduzir o diferencial de juros, criar fundos de exportação para produtos primários. Se há excesso de dólares, como a redução de parte desse fluxo explodiria a panela de pressão? Pode explodir o negócio do Paulo Leme, que consiste em trazer dólares pelo mercado financeiro para obter ganhos fáceis no País. Mas explodir o País? Trata-se de uma caricatura para enganar trouxa. E tem trouxa para tudo.
3. O dólar obrigará a economia a ser competitiva, em uma forma benfazeja de “darwinismo” econômico, como foi dito ontem em evento do ABN-Real.
O que caracteriza a competitividade? Ter produtos de igual ou melhor qualidade que o estrangeiro, a um preço menor ou igual. Se uma empresa nacional tem 30% de ganho de produtividade, isto é, ficou 30% mais eficiente, e o real se valorizou em 30%, todo o aumento de eficiência foi anulado pelo câmbio. E a empresa voltou ao nível de competitividade anterior, comparado ao seu rival estrangeiro. Como dizer, então, que a apreciação do real tornará a economia mais competitiva?
4. Com o real apreciado só perdem os setores ineficientes, como diz a primeira página do Globo de anteontem.
É falso! Perdem todos os fabricantes nacionais em comparação com seus concorrentes importados. Os menos eficientes morrem. Os mais eficientes perdem eficiência. Uma ou outra empresa pode melhorar individualmente, recorrendo à importação. Mas será à custa de seus fornecedores internos, destruindo sua cadeia produtiva e os empregos que gera.
Essa idéia do “darwinismo” econômico é uma das facetas mais cruéis desse financismo que tomou conta do País. Como é de extrema miopia a idéia de que o País passa por uma “reestruturação competitiva”. Setores nascem, crescem a duras penas, se consolidam, treinam seus trabalhadores, aprendem a inovar, a exportar. Quando ganham escala, conseguem investimentos.
No Brasil de hoje, assim como no das três primeiras décadas do século, esse processo natural está proibido. Quando os moveleiros, o setor têxtil, o de calçados conseguiram crescer, veio o câmbio de 1994 e quase os destruiu. Depois, anos para serem reconstruídos. Quando começam a respirar, outro golpe cambial. É a eterna sina do subdesenvolvimento e dos interesses específicos se sobrepondo a um projeto nacional.
dólar e risco brasil em queda
Um dia após o dólar comercial romper a barreira de R$ 2,00, o Banco Central apareceu duas vezes no mercado de câmbio ontem, mas não conseguiu impedir que a moeda dos Estados Unidos recuasse mais 1,46% e fechasse o dia a R$ 1,954, o menor valor desde 16 de janeiro de 2001. A ação do BC foi dificultada por uma notícia que atrai mais dólares ao País: a melhora na avaliação da dívida brasileira, feita pela agência dos EUA Standard & Poor"s. O resultado foi uma queda do risco-país para 148 pontos, o menor da história, e novo recorde na Bovespa, que subiu 2,41%.
fusão vivax-net
A diretoria da Anatel aprovou ontem a compra da Vivax (segunda maior operadora de TV a cabo do País) pela NET (maior operadora), mas impôs restrições ao negócio. A NET terá que renunciar a outorga da Vivax para prestar o serviço de TV a cabo em Santos (SP), uma vez que as duas operadoras possuem licença no município, mas poderá transferir os clientes da Vivax para a sua base de assinantes. Com o aval da Anatel, a NET passará a ter mais de 2,2 milhões de clientes de TV por assinatura, e elevará a sua participação nesse mercado de 39% para 46%. No mercado de banda larga, a participação da NET subirá de 13% para 15%. As duas empresas juntas também terão cerca de 257 mil clientes de telefonia fixa. A aquisição da Vivax também re-presentará um crescimento de 16% na sua receita líquida.
TCU E PETROBRAS
O TCU (Tribunal de Contas da União) aprovou ontem abertura de auditoria para investigar o acordo para a venda de duas refinarias da Petrobras na Bolívia, negociadas por US$ 112 milhões, em acordo fechado na semana passada. “Como se trata de patrimônio da União, o TCU pode e deve fiscalizar a operação e apurar eventual prejuízo à estatal”, disse o ministro Augusto Nardes, relator dos processos sobre a Petrobras. O ministro descartou, no entanto, a possibilidade de o tribunal determinar a suspensão do negócio antes da conclusão das investigações. Na negociação com La Paz, a Petrobras obteve menos do que os US$ 136 milhões que gastou na compra das refinarias (em 1999) e em investimentos nas instalações. O valor é superior, no entanto, aos US$ 65 milhões propostos inicialmente pelo governo boliviano.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.