Avaliações bolivarianas


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Não há clareza ainda sobre os desdobramentos da crise do petróleo e gás na Bolívia. Vamos conferir um ana-lista privado, cético em relação às conseqüências das últimas escaramuças; e um membro do governo que participou diretamente das negociações. O pano de fundo é conhecido. O continente tem três países com reservas de gás para exportar: Venezuela, Peru e Bolívia. E todo o Cone Sul com a perspectiva cada vez mais imediata de escassez de energia, especialmente Argentina, Brasil e Chile, Chávez deu o primeiro passo para o novo cenário, ao propor o Gasoduto do Sul. A Venezuela tem uma imensa reserva comprovada de gás, de mais de 150 trilhões de pés cúbicos, seis vezes mais do que a Bolívia (27,2 trilhões). A vantagem da Bolívia é maior ainda. Os dutos já estão funcionando, e ela poderia rapidamente aumentar a produção em cinco ou seis vezes. Mas necessitaria de grandes investimentos nos campos e na ampliação do diâmetro do Gasbol, o gasoduto Brasil-Bolívia. O grande mercado é o Brasil, o grande parceiro seria a Petrobrás. Aí as análises entram em conflito. O analista privado, cético, julga que Morales chutou fora ambos. Mas os estragos não teriam ficado restritos a isso. Há um núcleo duro na política boliviana, representado pelo senador Andrés Guzmán Heredia, que está seguro de que, se Petrobrás e as multinacionais não investirem, Chávez investirá. Portanto foi o aval da Cháavez que deu lastro à postura de Morales. E a Petrobrás sabe disso. Além disso, após oferecer um campo à Petrobrás por US$ 1 bi-lhão de pagamento adiantado (só de luvas para começar), Chávez agora mudou de idéia, e porá o campo em leilão. A Venezuela tem caixa para montar projetos de liquefação do gás e pode exportá-lo como commodity. Já a Bolívia não tem plantas de liquefação, não tem porto para escoar e precisa aumentar a produção bruta, o que requer consideráveis investimentos (US$ 3 bilhões para dobrar). Esses fatos teriam provocado danos irreversíveis na relação Petrobrás-PDVSA, podendo inviabilizar três negócios: os investimentos da Petrobrás na Venezuela, em petróleo e gás, o Gasoduto do Sul e a sociedade com a PDVSA na refinaria de Pernambuco. Para o negociador brasileiro, não houve danos irreversíveis. Teria sido pago um bom preço por uma refinaria anacrônica, segundo ele - o que não ameniza o fato de que a Petrobrás foi forçada a sair do refino. Segundo ele, já existem 50 técnicos trabalhando no Gasoduto do Sul. Além disso, a maneira como o Brasil se portou na Bolívia não deixou seqüelas. O modelo de decisão na Bolívia é colegiado, ao contrário do centralismo absurdo da Venezuela, diz ele. Na opinião do negociador brasileiro, a PDVSA se enforcará na própria corda. Ambos concordam que a empresa passa por terremotos terríveis de tempos em tempos, e a falta de limites de Chávez em inventar diariamente novos projetos em breve consumirá toda a capacidade operacional da sua petrolífera. Mas isso não impedirá os planos brasileiros. Além disso, a Brasken jamais informaria intenção de investir em pólo álcool-químico na Bolívia, se não fosse com o aval da Petrobrás, seu maior acionista. Risco Bolívia Morales está jogando fora o mercado natural e quase inesgotável do Brasil, porque a Petrobrás está fazendo qualquer coisa para se livrar da dependência da Bolívia, diz o analista. Para isso já está celebrando contratos de gás com a Argélia, Nigéria e Rússia. O custo do transporte transoceânico do gás, sua liquefação e regaseificação, será muito superior ao custo do gás boliviano. Não importa. Ladeira abaixo O Banco Central jogou a toalha e o dólar caiu abaixo dos R$ 2,00. O jogo fica diferente agora. A tendência será deslizar rapidamente para algo próximo a R$1,80. Mas aí cria expectativas fundadas de uma reversão brusca. Analistas estrangeiros passam a engati-lhar seus revólveres ou com Selic 10% ou com o dólar a R$ 1,80. Batendo no porão, há possibilidades, agora, de um retorno rápido para patamares mais elevados. Lula e a tecnologia A declaração de Lula de que não vai interferir no dólar e que, para que as empresas brasileiras sobrevivam à concorrência internacional, "temos que incentivá-las a serem competitivas com tecnologia moderna", esconde um pequeno detalhe. No seu governo houve todo ano contingenciamento das verbas de tecnologia, repetindo o procedimento de seu antecessor. E planos de política industrial não saíram do papel. Melhor momento A declaração de Lula de que o País vive o melhor momento da economia é tão ilusória quanto a de Fernando Henrique em 1998. A valorização do real cria uma falsa euforia que vai iludindo. O mercado fica tranqüilo, porque com todo espaço para lucrar. Como a mídia reflete exclusivamente o que o mercado pensa, cria-se o cenário do melhor dos mundos. Até que a realidade se impo-nha. Febrafarma A representação dos la-boratórios internacionais no Brasil é tão precária, que a Febrafarma e a Interfarma - as duas principais associações - não falam entre si. Em seminário em que vai a Interfarma, a Febrafarma não participa. E qualquer participação em seminário, por parte da Febrafarma, está condicionada a se dar lugar de destaque a seu presidente, Ciro Mortella, técnico sem expressão política.

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