Sem memória não há identidade. Os brasileiros ainda precisam aprender isso. Pedacinho do Brasil, Franca não é diferente. A especulação imobiliária junta-se à falta de interesse do cidadão e rapidamente espaços que contam a história de uma época desaparecem da noite para o dia. Há quem comemore, afinal é uma forma de ganhar dinheiro. Porém, também há quem se lamente por nossa memória ser jogada às traças. “É uma pena, pois Franca está perdendo seu patrimônio. É preciso uma conscientização. A própria população precisa se reconhecer como parte desta cultura”, afirma o arquiteto Marcelo Pini, em entrevista ao Comércio. Esta afirmação justifica bem o nascimento da Associação Paulo Duarte, grande passo para a conscientização da população às questões de preservar nosso patrimônio histórico.
A idéia surgiu de um grupo de ex-professores da Unesp (Universidade Estadual Paulista) e de pessoas ligadas ao patrimônio e ao Condephat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural de Franca). A OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público), que diferentemente de uma ONG tem o dever de prestar contas maiores ao poder público, mas tem a facilidade de levantar mais fundos, entrou em atividade este ano e desde o seu começo vem propondo trabalhos de conscientização e alguns projetos como a transformação do Museu Histórico em centro de pesquisa de cultura material e gestão do patrimônio cultural com parceria da USP (Universidade de São Paulo). O grupo promove, desde o início do ano, um trabalho de conscientização com crianças e adolescentes para fazer com que eles valorizem a história de Franca, seu patrimônio e sua própria história, para que se sintam como pertencentes à sociedade francana. “Este trabalho tem dado resultados incríveis. Os participantes montaram painéis com desenhos, escreveram poemas declarando seu amor à cidade, e quando crescerem, vão ter uma conscientizaçao maior”, afirma Graziela Alves Côrrea, presidente do Condephat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico e Turístico de Franca) de Franca, órgão criado em 3 de agosto de 1981, três meses após a demolição do Hotel Francano, cuja arquitetura remetia à riqueza dos barões do café e hoje faz parte apenas da memória de quem o conheceu e resiste em algumas fotos.
Mas não apenas Pini e Graziela se preocupam com estas questões. A nostalgia do tempo passado que se perdeu com a destruição do patrimônio da comunidade e a decepção diante das políticas públicas que não se preocupam com preservação afetam Ari Balieiro. Engenheiro, homem público e atual vice-prefeito, tem conhecimento de muitas histórias e chegou a conhecer espaços já destruídos, como o coreto e o caramanchão, que existiam na Praça da Matriz. “Acredito que em Franca aconteceram algumas demolições de construções que mostravam certos momentos da nossa cidade. Hoje em dia eu não conheço edifícios que tenham condições de ser história. O que aconteceu é irreversível e lamentavelmente temos uma cidade com poucas obras representativas”, lamenta. “Contávamos com o palacete onde morou o doutor Higino Caleiro, que possuía peças importadas e hoje é um banco, nas esquinas das Ruas Monsenhor Rosa e General Carneiro. E também temos, ainda hoje, a casa que foi de Bonaventura Cariolato, atual sede da Feac (Fundação Esporte, Arte e Cultura), onde antigamente funcionava um posto de saúde.
Eu já fui diversas vezes atendido pelo sistema de saúde do município naquela casa”, afirma ele, com saudade.
O Condephat é o órgão que protege os bens materiais de Franca. No momento, há 20 destes que estão tombados (confira no quadro ao lado), ou seja, não podem ser demolidos por estarem protegidos pelo conselho. Por outro lado, o tombamento não é a única forma de proteger um patrimônio. “Outra forma é digitalizar fotos do lugar, sendo esta a preservação virtual, guardada na memória. Há fotos, inclusive, do Hotel Francano na internet”, afirma Graziela.
As imagens que o leitor vê nesta página são de Divaldo Moreira. O repórter captou fachadas que poderão logo estar apenas nas fotos.
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