‘Com a Marcela, aprendi a viver um dia após o outro’


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Cacilda Galante Ferreira e a filha Marcela na nova casa em Patrocínio Paulista
Cacilda Galante Ferreira e a filha Marcela na nova casa em Patrocínio Paulista
Nem mesmo ela sabia da força que tinha. Sempre se considerou uma mãe comum, que mantinha um bom relacionamento com as duas filhas adolescentes. De uma hora para outra, viu toda sua vida se transformar. Foi quando percebeu que seria preciso ter muita garra e muita fé para enfrentar o que estava por vir. De mãe comum se transformou em uma grande guerreira. Um exemplo de amor e de total entrega. Desde o início, ela não sabia por quanto tempo sua filha viveria ao seu lado. Muitos condenaram sua decisão de levar adiante uma gravidez que tinha tudo para não ter futuro. Mas ela nunca deixou de acreditar. Mesmo sabendo o martírio que enfrentaria, resolveu deixar Marcela nascer. O bebê, que nasceu sem cérebro há quase seis meses na Santa Casa de Patrocínio Paulista, ensinou Cacilda Galante Ferreira a ver a vida de outra maneira. “Esses quase seis meses ao lado da Marcela têm sido um grande aprendizado para mim. Com ela, aprendi a viver um dia após o outro”. Para enfrentar a dor de ter uma filha anencefálica, Cacilda se apegou na fé. “Quando descobri que o meu bebê tinha um problema, pedi a Deus que fosse feita a vontade dele. Só ele dá a vida e só ele tem o direito de tirar. Se fosse preciso, enfrentaria tudo de novo, mas deixaria minha filha nascer novamente. É claro que eu sofro, mas sei que fiz a coisa certa”. Nesses quase seis meses de vida de Marcela, Cacilda teve que aprender a ser forte também para suportar tudo o que ouviu de pessoas estranhas que tomaram conhecimento do caso dela. “Um dia, recebi uma ligação de uma pessoa que não conheço e que me deixou muito triste. A pessoa me perguntou se eu não tinha vergonha de ter uma filha assim e o que foi que eu fiz para que ela nascesse sem cérebro. Eu não acreditava no que estava ouvindo. Fiquei tão arrasada que deixei o telefone desligado por vários dias. Foi essa ligação que me fez decidir mostrar a minha filha para todo mundo. Quero que saibam que não tenho vergonha dela”. Cacilda afirma que também ficou chateada quando falaram que ela dava mais atenção à Marcela do que às outras filhas. “Não é verdade. O meu amor é o mesmo pelas três. Só que a Marcela precisa de cuidados especiais. Ela precisa muito de mim e minhas outras filhas entendem bem isso”. Ela diz não ter medo de nada e estar preparada para tudo. “Muitas pessoas me perguntam como faço para dormir e se tenho medo de que aconteça alguma coisa com minha filha. Na hora de dormir, digo: ‘Nossa Senhora agora é a senhora quem vai cuidar dela enquanto eu for dormir’”. Cacilda não sabe quanto tempo a filha viverá e prefere não acreditar em previsões. “Sei que vou sofrer, mas se for a vontade de Deus levá-la, vou aceitar. Meu coração está tranqüilo e sei que fiz a coisa certa”. Com uma fé inabalável, ela sempre acreditou que a filha viveria mais que alguns dias conforme as primeiras previsões médicas, mas admite: “A Marcela está surpreendendo até a mim”. (PP)

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