Educador, por excelência


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O professor Wagner de Campos se emociona ao relembrar sua carreira nas salas de aula: “Sem nenhum pedantismo, eu saí pela porta da frente, que foi a mesma por onde entrei”
O professor Wagner de Campos se emociona ao relembrar sua carreira nas salas de aula: “Sem nenhum pedantismo, eu saí pela porta da frente, que foi a mesma por onde entrei”
<p>No último dia 5 de março, aos 63 anos de idade, 35 anos de carreira no ensino público, mas, ao todo, 50 de experiência em escola, o professor francano Wagner de Campos recebeu sua aposentadoria do Estado. Um dos mais brilhantes e criativos educadores de Ciclo Básico que esta terra já conheceu, entrega agora o giz e o apagador para as novas gerações de docentes, emocionado e num saldo positivo, planejando novas empreitadas. Seu alvo, agora, é a família. Ele quer se lançar ao desafio de orientar famílias acerca de sua importância fundamental na formação de suas crianças. Pensa também numa exposição de sua história no Ensino, toda documentada pelas mais de 300 excursões e eventos variados que promoveu junto aos seus alunos. </p> <p>Formou-se no Instituto Francano de Ensino, com aperfeiçoamentos diversos voltados à alfabetização e práticas de Ensino, e, posteriormente, uma complementação que lhe concedeu título em pedagogia. É bacharel em direito. </p> <p>Mas sua aptidão para a comunicação, fundamental ao sucesso na sala de aula, começou mesmo noutra área: trabalhou por dez anos como radialista, nas rádios Hertz AM e Difusora. Durante todo o tempo em que conduziu atividades diversas, jamais abandonou a sala de aula, como alfabetizador - sua grande paixão. Paixão pela qual falou emocionado ao Comércio da Franca. Nessa entrevista, o leitor terá clarificadas propostas como Progressão Continuada e Socioconstrutivismo Interacionista. Wagner de Campos mostra que o grande desafio da Educação hoje é ensinar o aluno a aprender, sem burocracia, pelo grande prazer.   </p> <p><strong>Comércio da Franca - Com que sentimento o senhor se aposenta do Estado?<br />Wagner de Campos</strong> - Sem nenhum pedantismo, eu saí pela porta da frente, que foi a mesma por onde entrei. Saio com o sentimento de dever cumprido. Eu poderia ter feito muito mais e vou sentir muita falta daquele espetáculo diário de educação que eu fazia (voz embargada e não se contém nas lágrimas). Eu tive de me superar a mim mesmo, sendo um dos únicos professores do sexo masculino entre mulheres tão competentes. Fiz da educação um espetáculo. Transformei diariamente a sala de aula num templo de aprendizado. Transformei esse local chamado sala de aula num púlpito ecológico, num palco de teatro como se regesse uma sinfonia; num picadeiro, para provocar risadas e, no meio da diversão, transformar o que vivíamos em conhecimento. Nunca preparei uma única aula na vida. Elas iam acontecendo lindamente, sempre. Esse contato me alimentava, energizava e renovava diariamente. Era uma terapia, acho que mais aprendi com as crianças do que ensinei. Eu vou sentir muita falta disso, demais. (chora novamente)<br /> <br /><strong>Comércio - Mas você tem um projeto de voluntariado, não vai parar...<br />Wagner de Campos</strong> - Já tenho uma palestra marcada com mais de 250 mães, em grupos de 40, na Infacap (Instituição Família Cavalheiro Petraglia), mas sinto que tenho ainda energia para muito mais. Mesmo assim, quero trabalhar com a família para buscar a sua interação com a escola. Quero falar da educação fora de aula, porque a educação não é somente papel da escola, mas uma somatória de vários segmentos que interferem na vida de uma criança. Os pais perdem uma grande oportunidade ao confiar toda a educação de seus filhos à escola. Isso não é bom. Quando a família se omite, quem vai educar essa criança? São os colegas na rua, o time de futebol, os programas de TV, o shopping... Se a família se incluir na escola, ganham ambos, a família e a instituição de ensino.<br /> <br /><strong>Comércio - Que paralelo você faz entre a educação formal que recebeu e a de hoje?<br />Wagner de Campos</strong> - Sou fruto da escola tradicional, fui alfabetizado por cartilha, centrada no método. Mas como as evasões e repetências eram altas, chegou-se à conclusão de que a metodologia não era fundamental. Especialistas como psicólogos, pedagogos e educadores estudaram o tema e chegaram às teorias do déficit, em que o responsável pelo fracasso da criança era a própria criança, ou seja, que ela, no caso de não obter resultados satisfatórios, talvez não estivesse ainda pronta para a aprendizagem. <br /> <br /><strong>Comércio - Cronologicamente, o socioconstrutivismo interacionista e a psicogênese da linguagem, proposto por Piaget e Emilia Ferrero, vêm depois disso...<br />Wagner de Campos</strong> - Emilia Ferrero, que era discípula das idéias do psicólogo suíço Jean Piaget, surge na década de 80. (Ela quer saber como ocorre o conhecimento e descobre que, na alfabetização, ao tomar contato com a leitura e a escrita, a criança reflete e formula hipóteses. A partir do momento em que ela descobre que é na reflexão, na ação e noutras hipóteses mais aprofundadas, usando seus conteúdos histórico, psicológico, social e físico, refletindo sobre o objeto em estudo,  é que acontece o conhecimento. Emilia estudou a psicogênese da aprendizagem da língua escrita e falada. Ela prova cientificamente que para a aprendizagem não existe método tampouco estado de prontidão, e, nesse momento, ela muda o foco da educação: o importante não é saber como o professor ensina, mas como a criança aprende. Ferrero vê a criança como um indivíduo que pensa, interage e produz. Essa é a teoria do momento, em Educação.<br /> <br /><strong>Comércio - Na sua opinião, como prático no assunto, essa, digamos, teoria do momento é efetiva? <br />Wagner de Campos</strong> - Não há como refutar a teoria da psicogênese da língua escrita. Eu sempre trabalhei com as crianças interagindo, construindo o seu próprio conhecimento, muito antes da teoria virar moda. Fui trabalhando intuitivamente por esse caminho, tocando de ouvido e não com partitura, como diz o ditado. Taí uma das razões pelas quais tive sucesso com as crianças: eu sempre dei autonomia. Minhas classes sempre foram as mais livres, autônomas, barulhentas. As crianças nunca estavam em silêncio, mas sempre interagindo, me desafiando e eu as desafiando, no melhor sentido. Sempre usei a estratégia lúdica, que é infalível com crianças. Com isso, elas aprendem sem perceber. Fazíamos pactos, compromissos, eu era cúmplice delas até nas artes, folias que sabia que eclodiriam em aprendizagem. Sempre tive por lema: cabeça cheia, caderno vazio. Cabeça vazia, caderno cheio, porque não há interação, aí. Fugindo do imediatismo dos conteúdos programáticos eu contextualizava sempre minhas aulas com o assunto vigente na comunidade. Dali começávamos a interagir, construir, concordar, discordar, opinar, sugerir. Da síntese disto criávamos sempre um texto, que era a nossa produção. <br /> <br /><strong>Comércio - Nesse clima, como se estabelecem os limites da responsabilidade e do respeito?<br />Wagner de Campos</strong> - Depois que você conquista a criança, ela se esforça por lhe agradar o tempo todo. Na minha sala de aula nunca houve alterações, nunca precisei mandar aluno para a diretoria. A gente sempre resolveu todas as questões juntos. Eu acho que atualmente há tanta indisciplina em sala de aula porque na família, na escola, em todas as instâncias, existem muitas normas, todo mundo manda e espera que a criança obedeça. Nossa cultura é ainda autoritária e punitiva. Não sobra muito espaço para ela própria deliberar. Se ela não tem espaço, nem em quem “mandar”, vai tentar fazer isso consigo mesma, aí está o embrião do egocentrismo, do individualismo. As próprias crianças estabelecem, junto comigo, as normas, nada escrito, massificante. Liberdade com responsabilidade.<br /> <br /><strong>Comércio - Ser atraente para a criança de hoje, assolada pela mídia, pela rapidez das tecnologias de informação e pelo audiovisual é um grande desafio na Educação, não?<br />Wagner de Campos</strong> - Especialmente num momento em que o finalista num programa de confinamento da televisão é tão interessante. O currículo oculto, como instrumento ideológico mesmo, que acaba ocorrendo de qualquer forma, deveria ser usado então para criar senso crítico, político e não para reproduzir futilidades. Há uma riqueza de assuntos para pautar o dia da criança, mas se não há orientação, aí entrando o papel da família, a criança se pauta a si mesma, e, claro, vai pelo prazer, pelo que é mais fácil. <br /> <br /><strong>Comércio - O que você tem a dizer da promoção automática ou Progressão Continuada?<br />Wagner de Campos</strong> - Sabendo da teoria da psicogênese da língua escrita e da teoria interacionista de Piaget, em que eu só aprendo se estiver inserido num contexto, interagindo e fazendo, não há como desprezá-la. No papel ela é bonita, trouxe uma escolaridade de ciclos, determinou um tempo para a criança ser alfabetizada e esse tempo não precisa ser seriado. Assim, a criança tem todo o ciclo para ser alfabetizada.<br /> <br /><strong>Comércio - Mas os resultados parecem desanimadores...<br />Wagner Campos</strong> - Sim, a comunidade carimbou isso de promoção automática. A Secretaria de Educação implantou o sistema de cima para baixo sem chamar a comunidade nem os professores para a reflexão disso. Não houve cursos de recapacitação antes de ser implantado esse sistema. Hoje sim, mas na época não. Isso desmotivou, no início, os professores. Mas progressão continuada é uma mão estendida para aquele aluno que precisa de mais tempo para ser alfabetizado, ela demonstra total respeito ao aluno. Acaba-se com o tudo ou nada da seriação: retenção ou aprovação. Mas a comunidade não foi chamada a refletir sobre isso. Esse é um sistema que dá certo nos chamados países de Primeiro Mundo. Os resultados desanimam porque o professor ainda precisa de recapacitação. Outro dado que atrapalha: pelo modo como são organizadas as escolas, sabe quem fica com classe de reforço? Não os melhores alfabetizadores, mas aqueles em início de carreira, ente 11h e 12h da manhã, já exaustos, porque ganham pouco e têm de trabalhar em turnos cansativos em várias escolas. Em suma, a estrutura estadual não estava preparada para a implantação desse sistema. Ainda colhemos os frutos podres disso, mas confio que chegaremos lá.</p>

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