As refinarias da Petrobras


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É possível que a Bolívia tenha pagado preço justo pelas refinarias da Petrobrás; é possível que não. De qualquer forma, foi incorreta a maneira como a maioria dos jornais analisou o preço da operação: pegaram o valor histórico pago pelas refinarias em 1999 (US$ 102 milhões), somaram os investimentos feitos pela empresa e compararam com o preço final da venda. É uma conta errada. Primeiro, porque os investimentos no período foram feitos com geração de caixa das próprias refinarias. A Petrobrás não fez nenhum desembolso adicional. Segundo, porque nesse período a Petrobrás embolsou dividendos anuais, com os resultados das refinarias. Terceiro, porque no cálculo contábil do valor de uma empresa há um item chamado depreciação, que se refere ao desgaste dos ativos da companhia. Quarto, porque internacionalmente o modelo de cálculo de valor de companhia é pelo chamado "fluxo de caixa descontado", isto é, da capacidade de geração de lucro da companhia, dada uma determinada taxa de juros (chamada de taxa de desconto). A lógica é mais ou menos a seguinte. Se um investimento me rende 12% ao ano, e vou receber anualmente R$ 1.000,00, de quanto deveria ser o depósito inicial para me garantir o valor acertado? Suponha que nas projeções de desempenho, o banco avaliador conclua que as refinarias poderão render US$ 15 milhões ao ano; lá na frente, quando forem revendidas, valerão US$ 100 milhões; e que a taxa interna de retorno (a rentabilidade esperada do investimento) seja de 12% ao ano. Em cima desses dados, o valor das refinarias seria de US$ 117 milhões. Mas vamos supor que, em vez de 12% de juros ao ano, o investidor aceite receber 10%. Nesse caso, o valor das refinarias salta para US$ 131 milhões, uma boa diferença. Internacionalmente, há quase um padrão de TIR para cada setor da economia. Setores de maior risco têm um TIR maior; de menor risco um TIR menor. Sobre esse TIR setorial, os avaliadores acrescentam uma margem de risco-país. Obviamente, na Bolívia a taxa de risco é alta. Entendidos esses princípios, passemos a palavra ao presidente da Petrobrás, José Sérgio Gabrielli. Explica ele que para se chegar o fluxo, estimou-se quanto seria o preço do derivado no mercado interno e para exportação. Em geral, há uma sobra do refino, chamada de cru reconstituído, que é exportada para os EUA, a US$ 55 o barril. Nas primeiras discussões sobre o valor das refinarias, levaram-se em conta vendas internas e externas. Na segunda, houve o impasse. O governo boliviano promulgou um decreto proibindo as refinarias de exportar o cru reconstituído. Nas novas discussões, os bolivianos queriam tirar esses valores de exportação do cálculo sobre o preço das refinarias. A Petrobrás bateu o pé, sustentando que a YPFB (Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos) poderá exportar o cru reconstituído, portanto o fluxo de exportações deveria entrar no cálculo. Segundo Gabrielli, foi esse entendimento que acabou prevalecendo, permitindo chegar ao valor de US$ 112 milhões. Foi caro ou barato? Não se sabe porque a Petrobrás não abriu o nome nem da instituição que fez a avaliação, nem o valor da taxa de desconto utilizada. Mas, segundo o mercado, o preço foi razoável. Indústria Mais um dado sobre a desindustrialização brasileira, desta vez em relatório da consultoria McKinsey. Entre 1997 e 2005, o setor de serviços contribuiu em 129% para a criação de postos de trabalho no Brasil. Na indústria, houve redução de 35%. Na agricultura, contribuição de 6%. Segundo a consultoria, essa tendência tem sido mundial, inclusive na própria China, que teria perdido 15 milhões de empregos. Mundo e Brasil O FMI está projetando para o qüinqüênio 2004-2008 um crescimento econômico inédito, desde os anos 70, com média de de 5,1% para o mundo e 7,5% para os países em desenvolvimento. Para o Brasil a projeção é de uma crescimento de 4,2% no qüinqüênio, o 22º entre os 24 principais países emergentes, acima apenas do México e da Hungria. A média brasileira corresponderá a apenas 55% da média das economias emergentes. Dívidas estaduais Entre 2000 e 2006 praticamente todos os Estados melhoraram a relação Dívida Corrente Líquida sobre Receita Corrente Líquida. A única exceção foi Minas Gerais. O campeão da melhora foi Mato Grosso, em que a relação caiu de 244,8% em 2000 para 100,3% em 2006. Em Minas, a relação subiu de 141,7% para 189,1% no período. A pior situação é do Rio Grande do Sul, cuja relação caiu de 248,4% para 253,6%. Brasil Competitivo Mestre Eliezer Baptista volta à luta. Em companhia do enge-nheiro Renato Pavan atualizou o trabalho "Brasil Competitivo", que aborda principalmente as vulnerabilidades na infra-estrutura brasileira. O trabalho fala da matriz de transportes, dos gargalos e das necessidades de investimento. E tenta trazer de volta o conceito de "eixos de integração", que o próprio Eliezer levantou no início dos anos 90. Investment grade Um país ganha o status de "grau de investimento"quando o risco de emprestar ou aplicar nele fica próximo de zero. Mas o que o país ganha com isso? A rigor, nada. Suas empresas ganham, se quiserem pegar financiamentos internacionais para processos de expansão. Melhora o custo do financiamento às exportações. Mas os dólares a mais que entram no país provocam valorização do real e aumento da dívida pública.

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