Para os estudiosos da psicometria, por exemplo, a inteligência humana começa a declinar aos 25 anos, o que significa o marco do início do envelhecimento das capacidades cognitivas, de aquisição de conhecimento. Para a geriatria, os 30 anos marcam a idade mais correta para o início das terapias de prevenção do envelhecimento.
E vamos percebendo como nos gastamos. Sim, a gente se gasta, a gente se repõe, a gente envelhece. A gente começa então a perceber que de fato envelhece quando as coisas passam a nos doer de um modo diferente ou quando as dores de sempre se amortizam. Ou, ainda quando certas dores aparentemente crônicas cessam, quando a paciência, esticada, dá lugar a uma resignação, a uma conformação sem inquietude nem resistência.
Pelo menos na alma, nos iniciamos em envelhecimento quando vivemos os dias enfileirados apáticos, uns iguais aos outros, sem questionamento, o triste silêncio do bovino que segue cabisbaixo sem tentativa de fuga para o abatedouro.
Quando os sonhos mais improváveis e coloridos, aquilo que os outros sempre chamaram utopias se tornam descrença. Estamos velhos no momento em que nos tornamos mais duros, no sentir e no agir - quando amizade passa a ter outras conotações, ao ponto em que protocolos, distâncias, pausas se tornam apostos de uma amizade estranha, sem entrega, sem maiores envolvimentos ou generosidade, uma amizade que não admite sinceridades desestabilizadoras.
Quando as feições ficam sulcadas, a cara toda lavrada pela vida, em expressões graves, tensas, quase feias de ódio ou rancor, ou dualisticamente beirando o belo. Quando a memória, não a longínqua, mas a imediata principia a tropeçar. Quando o mundo adolescente vira incógnita. Quando nos revestimos de preconceito feito armaduras ou metralhadoras. Quando compaixão se transforma em marketing pessoal para brilho em confrarias. Quando se passa a viver pelo ou para o outro esperando retorno.
A gente começa a obsolescer quando sai de sintonia com o tempo que escorre. Quando precisa de bengalas virtuais, quaisquer que sejam, para continuar de pé. Quando esfria é que a gente começa a morrer.
A cronologia não basta para aferir envelhecimento e juventude. A velhice está na cabeça, na desistência, no congelamento. Há pessoas de 20 anos totalmente apáticas, lentas, astênicas, desanimadas em seguir adiante. Existem, por outro lado, indivíduos que aos 70 anos se encontram na plenitude de suas funções emocionais, sexuais, com sede, vontade, fome de viver, ou seja, são o exemplo vivo da recém-descoberta plasticidade cerebral, ou seja, nosso cérebro se adaptando e se recriando, nossas funções mentais se ampliando. Sim, esta é uma capacidade humana e que nos alivia do fardo do determinismo físico e psíquico.
Um grande filósofo romano contemporâneo ao início da era cristã chamado Sêneca, escreveu a esse respeito: “deve-se aprender a viver por toda a vida e, por mais que tu te espantes, a vida toda é um aprender a morrer”. Se assim é, que seja então belo.
Cabe a você escolher quem e como quer ser nessa nova delineação de vida.
REAFIRMAÇÃO
A recriminação ao aborto, o rechaço ao sexo antes do casamento e às uniões homossexuais, a condenação à pílula, aliás, a negação absoluta ao direito que uma mulher tem em escolher se pode, se quer ou não ser mãe, linha-dura às pesquisas com células-tronco, que poderiam salvar milhares de vidas, a cruzada contra o que chama secularização da Igreja, em posturas fundamentalistas.
Esse é, em síntese, o conjunto dos posicionamentos do papa Bento XVI, em polêmica visita ao Brasil, que se desdobra muito mais pelo seu caráter político do que propriamente santo, na contramão de qualquer projeto progressista. Em suma, perdendo a oportunidade de utilizar seu poder de comunicação, a sua importância entre parcela da população, para reflexões mais produtivas, o Pontificado nada mais faz do que a afirmação da permanência dos velhos valores da Santa Sé. Um conservadorismo que aos poucos vai tornando a Igreja caricatura de si mesma e, claro, promovendo o êxodo de fiéis.
SANTO OFÍCIO
Os passos e as palavras do papa no Brasil evocam a gasta cartilha da intolerância e do autoritarismo. Mas hoje a coisa é mais light. Em vez de fogueira, há a excomunhão. Não aplicável, obviamente, às suas vestes. Aos padres gays, aos bispos polígamos, aos sacerdotes pedófilos sempre na mídia, transferências paroquiais relâmpago e o silêncio constrangedor de seus dirigentes. Báculos e mitras como adagas e lanças in Nomine Dei, com o perdão da licença poética, é preciso lembrar que o catolicismo também se empenhou em sua história, quando de fato representava poder político, às cruzadas sangrentas contra o que pudesse ameaçar suas estruturas. A mulher, no sentido bíblico e mítico do feminino, foi um dos grandes alvos da fúria desses fanáticos. A visita do papa e sua veemência contra as demandas femininas nos remetem ao passado.
PARA NÃO ESQUECER
O martelo das feiticeiras: Malleus Maleficarum, escrito pelos inquisidores Heinrich Kramer e James Sprenger, em 1484, uma obra que hoje pode ser lida como surrealista ou produto de mentes doentias, foi o manual usado na Inquisição. Do fim do século 14 até meados do século 17, o período de “caça às bruxas”, milhares de mulheres foram capturadas, torturadas e queimadas em fogueira, sob o pressuposto de que fossem feiticeiras e de que copulavam com Satanás ou dele seriam fruto. Um genocídio comparável, em crueldade, ao do Holocausto e que não pode ser esquecido. Naquele tempo, era perigoso ser mulher: qualquer uma poderia ser julgada como bruxa e submetida às regras cruéis do “Malleus Maleficarum”. Às vezes uma pinta de nascença ou o uso de maquiagem justificavam a barbárie.
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