Quem expõe um ponto de vista sobre qualquer assunto sempre encontra quem discorde. Nem todos pensam igual nem enxergam as coisas da mesma forma. Não sou pretensioso a ponto de pensar que todos que me lêem concordam comigo, ainda mais por abordar temas polêmicos Quando escrevi o artigo "Pastores e Ovelhas` já esperava divergências. Recebi diversas críticas. Uma pessoa defendeu os "pastores" dizendo que, segundo Jesus, quem prega o evangelho deve viver do evangelho, e que se deveria ter mais respeito quando se fala das coisas de Deus. Outra disse que eu rotulo todas as igrejas evangélicas como farinha do mesmo saco.
Já uma terceira concordou comigo, mas questionou: por que o Ministério Público, fiscal da lei, não toma medidas legais contra tais pastores? O que o impede?
Vamos lá. A afirmação de que quem prega o evangelho deve viver do evangelho, para mim, tem o sentido de que não basta pregar, é preciso agir segundo o evangelho, já que o ensinamento está mais na ação do que nas palavras; não é usar a Bíblia como meio para buscar riqueza material, poder, influência política. Jesus Cristo cobrava para fazer suas pregações? Fazia-as em templos luxuosos? Vivia na riqueza? Era apegado a bens materiais? Exigia gordas doações? Viver do evangelho, no meu modesto entender, é desapegar-se de bens materiais e buscar riqueza espiritual.
Quando criança, fiz parte de um grupo de garotos que queria aprender um pouco do evangelho, e quem nos passava os ensinamentos era um pedreiro, que se reunia conosco à noite, abdicando de boa parte do merecido descanso. Não cobrava nada.
Fazia-o por puro prazer. Gostaria muito que os fiéis vissem um vídeo em que o sr. Edir Macedo, debochadamente, ensina como tirar dinheiro deles. Equivocou-se quem afirmou que eu rotulo as igrejas evangélicas como farinha do mesmo saco. Não há sequer a palavra `evangélica` no artigo, que só se referiu às igrejas Universal do Reino de Deus e Internacional da Graça de Deus, embora haja outras iguais. Eu disse que houve uma proliferação de igrejas no Brasil, e isso é um fato. Pode parecer que eu quis defender a Igreja Católica. Longe disso. Outra pessoa disse que não há segmento que tire pessoas da prostituição, do vício das drogas e do álcool como as igrejas evangélicas. Quem dera! Esses males, assim como a criminalidade, só aumentam, como se espalham os templos das igrejas. Não que não haja quem se tenha livrado de tais males através da religião, mas é um número muito pequeno para reduzir as estatísticas.
Por fim, a importante indagação e razão maior deste segundo artigo: o que impede a ação do Ministério Público contra tais pastores? A lei. A Constituição Federal, no art. 5.º, VI, garante liberdade de consciência e de crença, livre exercício dos cultos religiosos e proteção aos locais de culto e suas liturgias. O Estado não pode interferir na convicção religiosa do indivíduo nem proibir a criação de igrejas. Assim, o MP não tem como impedir as doações movidas pela crença religiosa nem o voto em políticos picaretas, sob pena de incorrer em abuso.
Tentei passar a minha visão sobre o caráter nitidamente comercial das duas igrejas mencionadas. Deus não precisa de dinheiro. Quis chamar a atenção para uma imoralidade (nem tudo que é legal é justo ou moral). O Ministério Público é fiscal da lei, mas não da convicção religiosa ou política das pessoas; só pode agir se alguém que se sentiu logrado e sofreu prejuízo patrimonial o procurar. Repugna-me a exploração de pessoas, notadamente daquelas que passam por alguma carência e estão mais fragilizadas. Já disse em outro artigo que, se dependesse de mim, no lugar de muitas igrejas haveria escolas públicas de boa qualidade. Mas o candidato presidencial que propôs uma revolução na educação teve pouco mais de um por cento dos votos.
Por isso não me iludo. Falsos pastores, falsos evangelizadores, políticos corruptos e estelionatários se dão bem à custa de quem se recusa a cair na real.
PAULO PEREIRA DA COSTA é promotor de Justiça
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