À mãe Terra, uma oração


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A Terra é lindíssima vista do espaço. Quem já viu sua foto, tirada da lua ou de alguma nave próxima, sabe. Dá um calorzinho no peito a primeira vez que a vemos toda frágil girando no espaço. Na maioria das pessoas provoca aquela sensação de conforto, de intimidade, que nos ocorre quando avistamos nossa casa. Noutras, provoca um sentimento misto de alegria e de afeto, como aquele que experimentamos na infância, ao abraçarmos nossa mãe. Para muitos jovens, ver a Terra girando no espaço faz vir o mesmo sentimento que os fizerem chorar quando o monstrinho ET, do filme de Steven Spielberg, mirando as estrelas distantes, pronunciava de olhos marejados: “my home”..., “my home”. Na verdade, dá um friozinho na barriga, ver o planeta de todos nós girando sozinho no espaço. Sozinho, porque sabemos que em nenhum outro lugar nas proximidades, bilhões e bilhões de quilômetros à volta, há outro como ele! Nem em todo o Universo, temos certeza de haver planetas como a Terra, habitado por seres vivos, por homens e mulheres! Todos os anos são anunciadas novas descobertas de planetas - há duas ou três semanas foi a vez do GL 581c, situado a vinte anos luz de distância, na constelação da Libra, anunciado como o irmão da Terra. Irmão da Terra... A Terra tem dias, noites, tem anos, tem primaveras! Terra, a casa dos seres humanos, das preguiças, das corujas, das formigas e dos golfinhos. A Terra é o mundo dos jatobás, dos ipês, dos jequitibás, das araucárias e dos carvalhos. A Terra tem rios, tem mares tem cachoeiras, tem montanhas e tem planícies, tem água em abundância e tem a chuva, que a tudo renova, a tudo revigora! Se prestamos a devida atenção, dá vontade de rezar diante de tanta grandeza ínsita no frágil Planeta Azul! Mas dá arrepios pensar que já não há o Céu de outrora, situado no alto e para além das nuvens... Não só porque nós, humanos, poluímos as nuvens, mas porque já saltamos para além da atmosfera e nem mesmo sabemos aonde vamos chegar. Nas nuvens já não há o Céu, nem o limite... Sobretudo, dá angústia e medo colocar Deus noutro lugar! Dá arrepios, pensar que a vida é um fenômeno tênue e frágil, extremamente raro, dependente do equilíbrio igualmente frágil. Da janela aberta, a visão do diminuto pássaro, uma carriça, faz lembrar os pequeninos habitantes da Terra. Meia dúzias de árvores aos fundos e ela parece feliz... Mas faz lembrar também os gigantes da África, da Índia e dos mares, que necessitam das matas, das planícies e das águas, tudo, perigosamente com os dias contados!... Deus, onde quer que estejas! Faz com que os humanos sintam que não estão sós na Terra! Que há muitos outros seres, de igual complexidade e valor, que sofrem, que sentem dor! Oh Deus de todos os seres! Quem quer que sejas - e eu temo que não te pareças comigo! - faz com que os humanos pensem pelo menos nos seus semelhantes e que a Terra é o planeta de todos! Senhor Deus, faz com que os humanos se lembrem que todos os habitantes da Terra têm lugar insubstituível no frágil sistema da vida. Sobretudo, Senhor, faz com que os homens se lembrem que o seu berço se estende dos campos às montanhas, dos rios às matas, que são irmãos das corujas e das preguiças, dos ipês e dos jequitibás, e que a Terra é a mãe de todos, que a casa de todos é a Terra. Enfim, Senhor, que a Terra receba as bênçãos que merecem todas as mães! JOSÉ BORGES DA SILVA é procurador do Estado e membro da Academia Francana de Letras.

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