Culpa


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Há dias a imprensa noticiou, com grande destaque, que Franca tem a pior média salarial do Estado e, a culpa é da indústria de calçados, que responde por quase a metade dos empregos em nossa cidade. São dados fornecidos pelo Ministério do Trabalho e não há o que se contestar.Quanto à culpa, veremos... Franca é tradicional pólo calçadista que se especializou na produção de calçados masculinos de boa qualidade. Há quase um século vem melhorando seus produtos e conquistando mercados no mundo inteiro, exportando hoje para mais de setenta e cinco paises. E inaugurará, ainda este ano, o Centro de Design que ensejará, além dos bons produtos, exportar também a moda brasileira. Pela boa qualidade que produz, eleva o valor de seus preços. Enquanto a média brasileira não passa de US$ 9,82 por par, nosso sapato alcançou o preço de US$ 21,41, no ano passado. Se comparado com os demais setores calçadistas do Brasil, Franca paga em torno de 20% a mais em seus salários. Perde para outros segmentos da economia por algumas razões óbvias,a exemplo: a qualificação profissional do operário e a idade. Sessenta por cento do operariado calçadista tem idade entre dezesseis e vinte e cinco anos e o grau de instrução exigido não vai além do ensino médio, enquanto outros centros, como os produtores de carros e aviões, a maioria dos trabalhadores tem curso superior e a média de idade é acima de vinte e cinco anos. Pode acontecer de um operário que faz parte de um grupo de salários baixos, enquanto jovem, vá se compor no grupo dos bons salários após os vinte e cinco anos e já ter passado por uma indústria calçadista. Por ser uma indústria de mão-de-obra intensiva, o sapato passa pela mão do homem em torno de cento e vinte vezes durante o processo de fabricação, é grande geradora de emprego e generosa na distribuição de renda. Não se descobriu, ainda, máquina de fazer sapato que substitua o homem, como por exemplo, a colheitadeira de milho faz, substituindo 400 homens em um dia de trabalho. A indústria calçadista, por ser de mão-de-obra intensiva, é pouco exigente em formação profissional. Qualquer especialização, no calçado, o operário poderá executar com menos de seis meses de prática. Se ele vem da zona rural e entra em uma fábrica ganhando R$ 485,00 por mês (piso salarial), em seis meses poderá se tornar cortador de pele e ganhar em torno de R$ 1500,00 por mês. É comum, em uma fábrica de calçados, trabalharem pai, filho e filha registrados e, em casa, trabalha a mãe, nos intervalos das obrigações de dona de casa, em costuras manuais. Daí a renda familiar ser uma das melhores do Brasil. Não é por acaso que prefeitos e governadores de outros estados e outras regiões assediam Franca, querendo levar nossas indústrias. E curiosamente, em tempos passados, a imprensa noticiou que uma cidade, candidata a receber uma indústria automobilística, estava fazendo movimento para não recebê-la. Alegava-se que empregavam o engenheiro, porém não empregavam o filho da doméstica que trabalha para a família do engenheiro. Não é por acaso que Franca tem crescido mais que a média de outras cidades e tem atraído hotéis, restaurantes e grandes redes de lojas. Não é por acaso que Franca não tem grandes riquezas, porém não tem miséria, não tem favelas e quase não tem pedintes e, mesmo a violência, se comparada com outros centros, é menor. Como um artista que dá o máximo de si e ao final do espetáculo, cumprimenta ao público e espera por aplausos, o setor calçadista espera ser reconhecido como mola propulsora do progresso de nossa cidade e não como vilão das crises. Pois, ainda que com dificuldades, este setor aumenta a oferta de empregos e responde por sessenta por cento do PIB do município. Será o setor culpado? Ou culpa é um predicativo honroso? JORGE DONADELLI é presidente do Sindicato da Indústria de Calçados de Franca (Sindifranca)

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