Imagine a dor de uma mãe ao acordar todos os dias e não saber onde está seu filho. Ele está bem ou está sofrendo? Pior ainda, é não saber, sequer, se ele está vivo ou morto. “Só Deus e eu sabemos o quanto é difícil. Não tem como explicar. É uma tortura. Se eu tivesse perdido os braços e as pernas, não estaria doendo tanto. É pior que um câncer, é pior do que uma aids. É pior do que tudo”.
O desabafo é da dona de casa Tereza Cristina Fernandes Alves, 47, moradora do Parque Vicente Leporace, zona norte de Franca.
No dia 23 de março de 2004, seu filho David, com 14 anos na época, brincava no quintal do prédio em que morava. Eram 13 horas. De repente, ele desapareceu sem ser notado. David era um garoto caseiro, não tinha problemas com a polícia, estudava e não saía sem avisar os pais. Três anos se passaram e ele nunca mais foi visto. “Já fiz de tudo. Fui de porta em porta com a foto dele nas mãos, procurei a polícia e me cadastrei nas Mães da Sé, em São Paulo, mas nada. Recebi apenas alguns trotes. Me sinto com os pés e mãos atados, sem poder fazer nada”, diz a mãe.
O drama de Tereza Cristina não é único. Pelo menos outras duas famílias da cidade convivem diariamente com esse pesadelo há anos. No dia 26 de setembro completará seis anos que o estudante do CEI (Centro de Educação Integrada), Benedito Turqueti Limeira, com 35 anos, desapareceu. Ele tem dificuldades para se expressar, o que torna ainda mais difícil sua localização. “Ele era um rapaz educado, dócil e prestativo. Talvez esteja com alguma família na região. Por causas das limitações de comunicação, seria incapaz de pronunciar a cidade ou mesmo o nome com quem ele morava”, disse a enfermeira Marlet Furtado Limeira, cunhada de Benedito.
No dia 19 de agosto de 2005, a sapateira Andréia dos Santos Silveira, 21, moradora do Jardim Aeroporto II, saiu de casa para trabalhar no setor de pré-frezagem da empresa Democrata. Deixou o serviço mais cedo dizendo que iria ao médico. Nunca mais foi vista. Um indício de que sumiço não foi proposital é o fato de parte da quinzena do salário dela, depositada no mesmo dia, não ter sido sacada. Familiares chegaram a perder as esperanças de encontrá-la com vida.
Nos quatro primeiros meses de 2007, 50 ocorrências de desaparecimentos já foram registradas em delegacias de Franca.
São adolescentes que brigaram com os pais, pessoas com distúrbios mentais ou que enfrentavam algum outro tipo de problema. A grande maioria acaba aparecendo horas ou dias depois. Sumiços como os de David, Benedito e Andréia são raros.
Rara também é a força que move os familiares. “O dia em que eu deixar de ter esperança, não terei mais motivos para viver. Vivo para esperar o David voltar. A única coisa que me dá forças é acreditar que, um dia, ele vai abrir essa porta, vai entrar e me explicar o que aconteceu. Se não quiser ou não puder voltar, que ligue ou escreva para dizer que está bem. O que mais dói é a falta de notícias”, finaliza Tereza Cristina.
A Polícia Civil não dispõe de um banco de dados e também não possui um setor específico para apurar casos de desaparecidos.
Em tese, as investigações são feitas pela DIG (Delegacia de Investigações Gerais) e demais delegacias da cidade. A Prefeitura Municipal mantém em seu site (www.franca.sp.gov.br) um espaço para divulgação gratuita com fotos e informações. Basta apresentar cópia do Boletim de Ocorrência e uma foto.
Qualquer informação sobre o paradeiro de pessoas desaparecidas pode ser feita pelos telefones 197 e 190. A polícia garante o anonimato.
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