À sombra do preconceito


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Na última semana falamos sobre o preconceito relacionado à mulher separada, ainda vigente em nossa sociedade. Como vimos, são inúmeras as evi-dências da discriminação que ocorre em relação àquela que sai de um casamento. Donde se conclui se tratar, pelo menos a princípio, de uma posição nada confortável para a mulher, mesmo quando foi sua a iniciativa para separação. O temor a essa discriminação latente pode também ser um dos lastros a segurá-la numa relação insatisfatória. Temerosa de enfrentar o mundo fora do casamento, a mulher vai levando. Quem não conhece ainda hoje aquela figura da mulher estóica e forte num casamento sem trocas expressivas e que não a nutre (emocionalmente) de modo adequado? Grosso modo, na separação, as lanças quase sempre apontam para o elo feminino: se saiu por conta própria, os outros desconfiam de sua integridade; se foi abandonada, logo surgem rumores de que talvez fosse relapsa, grosseira, até mesmo frígida. Não adianta bradar, a questão é culturalmente arraigada: ainda hoje, se um homem maduro flana sozinho por aí, ele o faz por opção de liberdade. Se é a mulher madura a solitária se mostrando em barzinhos, é porque é uma fracassada, devassa talvez, vista com rejeição, desdém e suspeita. Em tempo: não será hora de abolirmos a palavra fracasso para o casamento que não seguiu adiante? Terá sido fracassado um casamento que durou 10 anos? Talvez uma forma mais adequada de pensá-lo, sem se sentir uma incompetente emocional, mas também sem usar paliativos, seja considerar que o relacionamento deu certo até o ponto em que chegou, que deu para chegar. O conceito de um casamento que “deu certo” pode ser muito relativo. LIGAÇÕES PERIGOSAS O Comércio publicou, no dia 1º de maio, a notícia da prisão do casal André Luiz Moreira Barcelos, de 21 anos e Bruna da Silva, de 22 anos, pelo assassinato de um pintor. Impressiona o ‘currículo’ do jovem: membro do PCC, com acusações de homicídios (inclusive o do próprio sogro), incêndios a ônibus etc. Mas mais impressionante é o tipo de ligação que ele mantinha com Bruna: matou o pai da moça por sua reprovação à relação, ateou fogo ao seu corpo por ciúmes, em 2005, e, por fim, assassinou o pintor em questão (junto com a mulher) sob a justificativa de que este teria assediado sua companheira. Que ligação é essa, em que o ciúme justifica o assassinato? É como se na luta por seu objeto de desejo, alguém precisasse morrer. O criminoso executa concretamente o que lhe vai por dentro: me ameaçou, eu mato, ou seja, o ato desfazendo o delírio. Generalizações, sem a avaliação individual e pormenorizada de cada integrante da dupla, não são aconselháveis, mas esse caso parece ilustrar um acometimento conhecido pela psiquiatria e psicologia, denominado folie-à-deux (loucura a dois) e traduzido hoje pelo DSM-IV (classificação de doenças mentais) por Transtorno Psicótico Compartilhado. Trata-se de uma perturbação relativamente rara, em que seus integrantes não se reconhecem doentes. Este transtorno implica geralmente duas pessoas que pertencem à mesma família ou convivendo durante muito tempo juntas e isoladas, no sentido emocional, do mundo externo. Supostamente um dos membros do par - que possui o transtorno primário - será quem incutirá o delírio ao outro, mais dependente, submisso ou sugestionável. Nesse caso francano, um dos dois parece perceber ameaças reais e/ou imaginárias que são prontamente aceitas pelo outro e atuadas como reação, sob a forma extrema do assassínio. Tudo leva a crer que não há, entre eles, o elemento que leve dados de realidade para a dupla. Ambos, em relação algo simbiótica acreditam em suas criações e delírios. CASO CLÁSSICO Um caso clássico de folie-à-deux é o das irmãs Papin, que em Paris, no ano de 1933, mataram suas patroas e arrancaram-lhes os olhos, dilacerando seus corpos com instrumentos cortantes, como se preparassem uma ceia. Eram consideradas empregadas-modelo e, no seu julgamento, não conseguiram se valer de nada que justificasse seu ato. Disseram ainda, na ocasião, que gostavam das patroas. A única questão, e essa parece explicar parte do caso, é que não se falavam. A palavra, entre elas, não fora instituída e, em seu lugar, o silêncio subvertera a autoridade. O francês Jacques Lacan forneceu contribuições valiosas sobre a etiologia das psicoses com base no estudo desse caso. Jean Genet também se inspirou na dupla para escrever a peça “As Criadas”. JORNADA DE PSICOLOGIA Entre os dias 8 e 10 de maio a Universidade de Franca promoverá sua concorrida Jornada de Psicologia, sob o tema: “O Lugar da Psicologia na Atualidade”. A palestra que abrirá o evento, na terça-feira, às 14h30, será ministrada pelo psicólogo com pós-doutorado pela Université Catholique de Louvain, José Paulo Giovanetti, que tratará da inserção da Psicologia na pós-modernidade. Outro tema interessante, a ser discutido pelo psicólogo, doutor pela Unicamp, João Francisco Duarte Júnior, no dia 10, às 8 horas, é: “O Conhecimento Inteligível, o Saber Sensível e a Crise Contemporânea”.

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