Coisa difícil de engolir é a tal propaganda de governo. Não me refiro à necessária publicidade de certos atos, leis, portarias, editais, etc. Falo daqueles comerciais veiculados na mídia em que os governantes vêm mostrar suas realizações. O cidadão, de repente, passa a pensar que está no paraíso e não sabia. São tantas as obras, tantas as melhorias que dizem ter efetuado que fica a impressão de que o país, os estados, os municípios transformaram-se de inferno em céu.
Beiram a zero o desemprego, o analfabetismo, a mortalidade infantil, a fome, a miséria, a desigualdade social. A escola pública e o atendimento à saúde ficaram ótimos. Não há mais buracos nas ruas, nas rodovias; acabaram-se os crimes; há Polícia, escolas, creches, pronto-socorros, etc. em todos os bairros; o trânsito flui que é uma beleza; o munícipe pode andar sossegado pelas ruas; tudo funciona às mil maravilhas.
Corrupção? Foi banida. A probidade, a transparência, a estrita obediência à lei são a marca da administração. Puxa vida! E nós trancados em casa, com medo, pensando que é perigoso sair às ruas! Nós preocupados com os filhos que saíram à noite! Que nada. Eles estão seguros. Não correm riscos de furto, roubo, acidente de trânsito, agressão, de serem atingidos por um tiro.
Por isso, segundo a propaganda, a administração é perfeita. Não é essa a sensação que dá vendo aquelas pessoas sorridentes e alegres que são mostradas e entrevistadas, aquele ar de triunfo que o político tenta passar? O pior, além da falta de escrúpulos usada na tentativa de ludibriar o cidadão, é que toda essa encenação é paga com o nosso dinheiro. A propaganda é legal e possui dotação orçamentária. É bancada pelo contribuinte. E sai bem cara. É mais um exemplo do que é legal, mas injusto.
Para muita coisa necessária sempre falta verba; para a propaganda de governo não. Sejamos sensatos: é necessário fazer propaganda de governo? Se o administrador fez alguma coisa boa, foi além da obrigação? Não foi para isso que se candidatou ao cargo? É preciso alardear aquilo que deve ser feito por questão de probidade e idealismo? É correto, é justo gastar vultosas quantias para propaganda com dinheiro que poderia sanar problemas em áreas vitais para a sociedade, como a educação, a saúde, etc.? A pessoa vale pelo que faz, não pelo que fala. Os políticos, porém, sentem uma necessidade incontrolável de aparecer. Ignoram que o que realmente pode torná-los dignos de admiração é o que fazem para o bem comum, é o que praticam, não o que falam.
E a festa que muitos deles fazem quando se elegem? Parece alguém que ganhou sozinho uma loteria acumulada. É idealismo? Ou é alívio por saber que vai poder desonerar a alma empenhada ao Diabo na campanha? Sendo a classe mais desacreditada do país, é difícil crer na primeira hipótese. Lembro quando ingressei no Ministério Público. Realizei meu sonho. Não fiz, porém, nenhum alarde; não houve festa, embora obviamente estivesse feliz. Um salário melhor, um cargo importante. Mas era um misto de felicidade e preocupação. Sabia que passar no concurso era apenas uma etapa. Pensava na responsabilidade do cargo, em como exercê-lo bem, em não decepcionar aqueles que viram em mim uma pessoa apta a integrar tão importante instituição. Não deve ser assim também com os políticos? Quem recebe do povo o voto de confiança deve sentir-se honrado e encarar com seriedade, responsabilidade. Afinal, passa a ter poder de influir no destino da nação, do estado, do município, do povo. Se se candidatou por idealismo, como se espera de todo postulante, deve pensar e agir em prol do povo em vez de fazer autopromoção.
O povo elege o governante para administrar com probidade, seriedade. Não é brincadeira. Senhores políticos, o idealismo, a probidade, a ética, o trabalho sério são sua melhor vitrine. Tudo que é feito pelo governo, bom ou ruim, é visto, seja `in loco`, seja na mídia. Não é necessário gastar o dinheiro do contribuinte tentando convencê-lo de que o cinza é rosa. Se têm um pouco de decência, deixem a alta verba da propaganda para fins mais nobres.
PAULO PEREIRA DA COSTA é promotor de Justiça
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