Quem segurou o câmbio


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Na entrevista que encerra meu livro Os cabeças de planilha, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso sustenta que não se tentou corrigir o câmbio em 1995 em função da perspectiva de uma crise bancária - a mesma que tornou necessária a criação do PROER. A demora em corrigir o câmbio foi fatal para o País. Provocou uma expansão incontrolável da dívida pública, dizimou diversos setores empregadores de mão-de-obra, quebrou Estados e municípios. Personagens da época, contudo, têm uma versão diferente para o episódio. Quando FHC assumiu, em 1995, foi criada uma espécie de Câmara Setorial para analisar a questão do câmbio. Compunham o grupo o Ministro do Planejamento José Serra, o da Fazenda Pedro Malan, o Secretário de Política Econômica da Fazenda, José Roberto Mendonça de Barros, o Ministro-Chefe da Casa Civil Clóvis Carvalho, o presidente do Banco Central Pérsio Arida e o Diretor de Política Monetária Gustavo Franco, entre outros. Quase todos eram a favor de um ajuste rápido no câmbio. Contra estavam Gustavo Franco - que, segundo membros da comissão, falava muito pouco, entrando mudo e saindo calado, mas anotando tudo - e Malan, que assumia mais de frente a defesa da política cambial. Em todas as reuniões, prevaleciam os argumentos do grupo a favor do conserto rápido do câmbio. Quando a reunião terminava, tudo continuava na mesma. É evidente que Malan, sozinho, não conseguiria fazer valer sua opinião. Mesmo assim, em um Ministério dividido, em uma Câmara Setorial dividida, é evidente que prevaleceria a decisão do chefe maior, no caso, o presidente da República. A decisão de manter o câmbio apreciado foi de FHC, mesmo sabendo que estava destruindo setores inteiros da economia. Na entrevista ele admite o estrago que provocou em diversos setores, admite o erro do real apreciado, e fala do esforço que se seguiu, ainda no seu governo, para tentar reconstruir esses setores. Fala, também, da falta de crítica à política cambial que, segundo ele, tirava do governo qualquer possibilidade de mexer nela. A falta de crítica se devia, de um lado, à ilusão passageira provocada por uma moeda forte. Cria-se uma sensação de bem estar e prosperidade que não é sustentável com o tempo. O segundo fato é o papel do governante, desqualificando as críticas. Valendo-se do seu cargo, e do apoio incondicional da grande imprensa, FHC qualificava os críticos do "neobobos". Repete-se agora o mesmo drama. O canto de sereia do câmbio apreciado vai provocando estragos em todos os setores. Em um primeiro momento, provoca aumento da demanda, gerando algum emprego. Depois, o excesso de importações de manufaturados vai destruindo setores, matando empregos. E o impulso inicial se dissolve, trazendo de volta a crise. Repetirei aqui o que escrevi sobre o governo FHC em 1998. O governo Lula começa a engrenar. O PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) foi um avanço, assim como tem sido a Bolsa Família e os planos de educação anunciados pelo Ministério da Educação. Todos esses avanços irão por água abaixo, quando os resultados dessa apreciação cambial se mostrarem mais visíveis. GRAU DE INVESTIMENTO Um país torna-se "grau de investimento" quando as agências de risco consideram que o risco de aplicar nele é praticamente inexistente. Na semana passada o presidente do BC, Henrique Meirelles, afirmou que é questão de tempo para o País entrar nessa categoria. Com o risco caindo ainda mais, aumentará o diferencial em relação à taxa Selic. O resultado será o aumento do fluxo de dólares, apreciando ainda mais o real. `APAGÃO` TARIFÁRIO Especialistas descartam a possibilidade de um "apagão" elétrico como o de 2002, quando houve racionamento. Hoje em dia existem muitas alternativas complementares, caso o sistema hídrico seja insuficiente. O efeito será sobre as tarifas. Quanto mais se recorrer às termoelétricas ou outras energias alternativas, maior será o preço bancado pelo consumidor. O maior problema continua sendo o do licenciamento ambiental. CHÁVEZ E O FMI A saída da Venezuela do Banco Mundial e do FMI não muda em nada o quadro mundial, nem o da Venezuela. Mas prejudicará as duas instituições, que já enfrentam problemas de falta de recursos. Com os lucros do petróleo, há muito a Venezuela não necessita nem dos dólares do Banco Mundial, nem aceita ou precisa do monitoramento do FMI. Para ela, ambos representam apenas custos. EMBRAER E NEIVA A história vitoriosa da Embraer tem alguns pontos obscuros que ainda não foram contados, o principal dos quais foi o esmagamento das companhias privadas de fabricação de aviões, como a Neiva, que tinha a patente do Paulistinha, o avião criado pelo IPT e por Baby Pignatari. Originalmente a Embraer havia sido criada para amparar essas empresas. Em pleno Regime Militar, acabou absorvendo-as. PETROQUÍMICA Esse movimento foi idêntico ao que ocorreu na área petroquímica. Para a Petrobrás controlar a Petroquímica União, o CIP (Conselho Interministerial de Preços) impediu o aumento dos derivados, enquanto a Petrobrás podia aumentar a matéria-prima. Quando os acionistas estavam com a corda no pescoço houve um aumento do capital subscrito inteiramente pela Petrobrás. No dia seguinte, os preços foram reajustados novamente.

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