Coração atrás das grades


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Joana* tem o filho internado na Febem de Ribeirão Preto: “Todos os dias choro por causa da falta que sinto dele”
Joana* tem o filho internado na Febem de Ribeirão Preto: “Todos os dias choro por causa da falta que sinto dele”
Toda segunda-feira, Luzia Patrício Monteiro, 56 anos, repete o mesmo ritual. Troca o lençol das camas, arruma a penteadeira e prepara o arroz com feijão especial que seus filhos tanto gostam. Cada detalhe é pensado para recepcioná-los. Mas há quatro anos eles não comparecem. Estão presos. Luzia é mãe de 11 filhos, quatro deles estão atrás das grades. “Faço tudo porque tenho esperança, vai que eles chegam de surpresa...”. Como ela, pelo menos, 400 mães em Franca vivem esse drama. São mulheres que, por uma razão ou outra, têm que conviver com o fato de terem um ou mais filhos atrás das grades. A maioria ainda tenta entender o que aconteceu para que seus filhos se perdessem e entrassem no mundo do crime. “Sempre dei de tudo a eles. Não somos ricos, mas nunca faltou nada em casa. Não sei o que houve, ainda me pergunto se falhei em algum momento”, conta Márcia*, que tem o filho preso na Febem (Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor) em Ribeirão Preto. Muitas dessas mães precisam de remédios para se sentirem melhor e conseguirem tocar a vida a diante. Noites sem dormir, choro, preocupação e muita saudade marcam a história dessas mulheres. Luzia mora com o marido e duas filhas adolescentes (os outros filhos são casados e independentes) numa casa simples de cinco cômodos no Jardim Vera Cruz. Para sustentar a família, trabalha como empregada doméstica. Seu marido é pedreiro. Todos seus quatro filhos foram acusados de tráfico de drogas. “Não entendi o que aconteceu. Sempre trabalharam e tiveram o que queriam. Nunca imaginei que pudesse acontecer uma coisa dessas com eles. Dentro de casa, eram um exemplo”. A renda da família hoje chega a mais ou menos R$ 900. Como precisa pagar aluguel e as contas da casa, não sobra dinheiro para que Luzia possa visitar os filhos que estão presos em outras cidades. Apenas um está em Franca. Há quase dois anos, ela não os vê. “Não tenho como pagar as passagens de ida e volta para ver meus filhos, é muito caro pra mim. Já fiz de tudo para conseguir juntar mais dinheiro, mas nunca consigo”. O primeiro filho de Luzia, de 34 anos, foi preso há quatro anos. “Meu vizinho me avisou que a polícia o tinha levado. Nem acreditei”. Meses depois, foi a vez do segundo, de 27 anos. “Não desconfiei que ele pudesse ter o mesmo erro do irmão. O pior é que nem tinha me recuperado dessa segunda prisão e, logo em seguida, veio a terceira. Meu filho de 21 anos também havia sido preso. Nem sei como não morri”. Eles estão presos, respectivamente, em São Paulo, Balbinos e Franca. A prisão de seu quarto filho de 19 anos foi a mais chocante. “Estava em casa e a polícia bateu na porta. Nem abri e eles já entraram atrás do meu filho que estava dormindo, o levaram de mim. Tenho certeza de que ele é inocente”. Para matar a saudade dos filhos, Luzia guarda uma foto dos meninos. “Eu a deixo escondida num cantinho do armário e só a pego quando o coração aperta. É muito triste olhar para eles e pensar que estão presos”. O maior sonho da empregada doméstica é ter os filhos de volta ao seu lado. “Já até vejo o dia em que eles abrirão minha porta para me abraçar e me beijar. Só Deus sabe a dor que sinto quando lembro que eles não estão aqui”, disse. Mesmo consciente de que seus filhos ainda devem levar anos até cumprir suas penas impostas pela Justiça, Luzia não perde a esperança. “Quero todos aqui felizes e bem perto de mim. Quando voltarem estarei de braços abertos para recebê-los e tenho esperança de que nada vai interferir em suas vidas”. * Nome trocado a pedido das entrevistadas

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