<p>O professor Abib Salim Cury, 71, é um homem dedicado à educação. Graduado pela FORP (Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto) e também bacharel em Direito pela Unaerp (Universidade de Ribeirão Preto), ele tem 45 anos de trabalho docente na USP (Universidade de São Paulo) e é, atualmente, chanceler e um dos sócios da Unifran (Universidade de Franca).</p>
<p><br />Secretário da Educação de Ribeirão nos anos de 2005 e 2006, ele deixou o cargo após ver sua gestão implicada em denúncias na licitação de obras em escolas. Da experiência, guarda lições e promete: nunca mais quer se meter "em política". "É um ambiente complicado. Tentamos fazer muitas coisas, mas nem sempre conseguimos. Conheci o sistema por dentro, e não gostei". </p>
<p><br />Ele foi eleito, na última semana, presidente da Anup (Associação Nacional das Universidades Particulares), órgão que reúne 45 instituições privadas de ensino. Entre os novos projetos, ele defende o mestrado profissional e maior investimento do governo em entidades particulares. "A pesquisa não pode ser financiada só na universidade pública", explica. O novo presidente da Anup conversou, com exclusividade, com a reportagem do Comércio em sua sala na Unifran na última semana. </p>
<p><strong>Comércio da Franca - Gostaria que o senhor falasse um pouco sobre a importância desse cargo. O senhor acredita que Franca adquire mais representatividade nacional através de sua pessoa?<br />Abib Salim Cury</strong> - É um cargo importante, na medida que é levado em consideração nas grandes decisões da Educação brasileira. Através da Anup seremos ouvidos pelo ministro da Educação, pelos secretários de governo, enfim, por pessoas que decidem. Franca ganha representatividade, claro, à medida que todo meu trabalho está aqui.<br /></p>
<p><strong>Comércio - E quais os principais planos o senhor pretende desenvolver à frente da entidade?<br />Abib</strong> - Nós temos grandes metas. Primeiro de tudo, precisamos debater o financiamento da pesquisa. Não interessa se é público ou privado, o critério deve ser a qualidade. Se for bom tem que ser financiado e hoje, infelizmente, o financiamento é quase que totalmente público. Existe um preconceito muito grande. Temos grandes projetos, equipes capacitadas mas, na hora de recebermos as bolsas, todas são negadas. O que importa é a pesquisa, a ciência, não de onde ela vem. Temos que acabar imediatamente com essa distinção. <br /></p>
<p><strong>Comércio - Fora isso, o senhor terá algum ponto especial de ação?<br />Abib</strong> - Temos uma carta de 15 pontos que iremos focar. Entre todos os pontos, iremos defender a criação de um mestrado profissional, voltado para o mercado, que possa ser capaz de fornecer mão-de-obra para o trabalho, não só para a academia. Estamos articulando uma grande ação nacional nesse sentido. Vou tratar do assunto com o ministro Fernando Haddad em um encontro na próxima semana.<br /></p>
<p><strong>Comércio - Muitos apontam as universidades particulares como as grandes culpadas pela má-qualidade na formação de mão-de-obra e também pela formação excessiva de profissionais, o que complica o mercado de trabalho. Qual sua posição sobre isso?<br />Abib</strong> - Claro que tem posição. Eles (os críticos) só se esquecem que eles foram criados para defender o profissional. Todos formados em escolas públicas. Poucos pensam na inclusão dos que não tiveram condições plenas de desenvolver suas potencialidades.<br />É preciso saber, antes de criticar, qual é a qualidade do aluno que nós estamos recebendo nas escolas do ensino superior. O problema não é o ensino nas particulares, mas sim a formação no ensino básico. A situação nas públicas só é melhor graças ao critério de seleção. Mesmo nos equipamentos e, arrisco dizer, no corpo docente, as universidades particulares hoje são melhores.<br /></p>
<p><strong>Comércio - Ainda sobre isso, o senhor acredita que o barateamento das mensalidades tem a ver com a queda na qualidade do ensino?<br />Abib</strong> - Antes, as universidades particulares trabalhavam com as classes B e C. Hoje, trabalham com as classes C e D. É uma diferença. Ainda assim, mesmo com mensalidades mais baratas - de R$ 200 a R$ 300 - continuamos investindo. O número de mestres e doutores é o mesmo, as exigências são as mesmas. O grande problema é a formação desse público.<br /></p>
<p><strong>Comércio - Essa seleção deveria ser aprimorada? A Anup pode fazer algo nesse sentido?<br />Abib</strong> - Deveria. Mas, se aprimorar, não tem aluno, eles não conseguem entrar e as faculdades iriam falir. Entenda, não podemos recusar alunos, isso seria a sentença de morte para as universidades particulares. O grande critério de seleção está nos públicos. A solução para melhorar a qualidade de ensino é melhorar o ensino básico, é o investimento maciço em educação. Qualquer outra solução é paliativa.<br /></p>
<p><strong>Comércio - O senhor trata de uma questão que não é de pertinência, num primeiro momento, da universidade particular, mas sim do governo. Sendo uma entidade essencialmente privada e coorporativa, como acomodar os interesses?<br />Abib</strong> - Tem que se discutir as políticas. Investimos 3,2% do PIB (Produto Interno Bruto) no ensino fundamental. O ideal é que fosse 5%. Aí vem um ministro e diz que vamos chegar nesse índice em 2012. Até lá, o que podemos fazer? O aluno vai continuar a sair analfabeto do ensino básico e vai chegar, cada vez mais, à universidade. E, voltando à sua pergunta, claro que esse analfabeto funcional, depois de formado, será um profissional de má-qualidade.<br />Mais que isso. O mesmo ministro, Fernando Haddad, declarou que falta gestão nas verbas públicas. O que fazer? Não é nossa competência mas, ao mesmo tempo, somos afetados no fim do processo.<br /></p>
<p><strong>Comércio - E como lidar com essa realidade?<br />Abib</strong> - A gente lida tentando melhorar. Na Unifran, por exemplo, temos uma série de ações sociais, tem um setor exclusivo para ajudar os que chegam. Não é o ideal, mas é o que podemos fazer. É uma espécie de curso intensivo para quem entra.<br /></p>
<p><strong>Comércio - Falando sobre políticas públicas, o que o senhor acha do Pró-Uni? É um bom caminho?<br />Abib</strong> - Não, nada disso, isso não é nada viável. O problema é a defasagem entre o ensino médio e a universidade, e entre o ensino básico e o ensino médio. O Pró-Uni resolve um problema, mas não modifica as estruturas. Acredito que uma boa solução seria o ensino médio profissionalizante. Mas trabalhamos com o possível.<br /></p>
<p><strong>Comércio - E a Anup, o que pensa do Pró-Uni? Veja bem, as universidades privadas recebem, por esse programa, repasses que correspondem a 500 mil matrículas, algo em torno de R$ 250 milhões...<br />Abib</strong> - O Pró-Uni é um caminho. Ajuda pessoas que nunca poderiam chegar à universidade a ter oportunidades. Não sei se é o melhor caminho mas, para as faculdades privadas, é um bom projeto, pois dá condição de uma gama maior de pessoas ter acesso aos serviços oferecidos. Não é salvação da lavoura, porém. É preciso mais que isso.<br /></p>
<p><strong>Comércio - Ao assumir o cargo, o senhor permanece em Franca?<br />Abib</strong> - Eu fico na medida da necessidade. A Unifran está em boas mãos e terei liberdade para, na medida da necessidade, viajar para cumprir a agenda em outras cidades.<br /></p>
<p><strong>Comércio - O senhor teve uma experiência como secretário da Educação do governo Welson Gasparini (PSDB), em Ribeirão Preto. O que o senhor leva para a Anup desse período?<br />Abib</strong> - Conheci o sistema por dentro e posso dizer: em Ribeirão Preto, onde está a nata da Educação, ele é podre por dentro. Descobri crianças que não sabiam ler e escrever. Encontrei uma incapacidade técnica e de operação muito grande. Mas foi uma experiência válida. Hoje sei, por exemplo, que existe verba em Brasília para as cidades. O que não existe são bons projetos. É uma mudança no foco da Educação.<br /></p>
<p><strong>Comércio - O senhor foi envolvido em denúncias de esquema de superfaturamento de obras em Ribeirão. Deixou o cargo por isso?<br />Abib</strong> - Pedi para sair. A pressão foi grande, mas desenvolvi ótimos projetos lá. Quanto às obras, elas foram feitas porque tinham que ser feitas. Eram necessárias. Não posso falar pelas empreiteiras, já que as licitações não eram minha responsabilidade. Mas da experiência que vivi posso dizer que sou um homem mais triste. Elegeram-me para alcançar o prefeito porque fui um homem que fez.<br /></p>
<p><strong>Comércio - E sobre Franca, alguma pretensão em ocupar algum cargo na administração da cidade?<br />Abib</strong> - Nunca mais assumirei nenhum cargo público. Não tenho partido, nunca tive, mas a experiência foi traumatizante e vou procurar colaborar do lado de fora.</p>
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