Dossiê Casamento: vida é movimento


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Há casamentos que já nascem falidos. Na maioria das vezes, a intuição posta em funcionamento, temos uma vaga noção disso, ainda que teimemos em nos enraizar nas promessas ilusórias que nós próprias criamos de uma vida cor-de-rosa. É propício e até óbvio ponderar, contudo, que todos entram numa relação apostando nela, mas é fato que muitos não se envolvem seriamente nessa aposta. Como se casamento fosse uma entidade autônoma e abstrata, independente das duas pessoas que o compõe. Como se pudesse caminhar sozinho. Vida é movimento. Ela pulsa, empurra para frente e cobra atitude. Ligações, casamentos, uniões são circunstanciais. Então, de volta ao baque da separação: depois de, digamos, 15, 20 anos de vida conjugal regrada por certos limites e padrões, pela orientação de sua atenção, afetividade e preocupações voltada quase que exclusivamente para a casa e a família, você se vê de repente atirada de volta a um modo de vida que não reconhece mais, ou a um modelo totalmente desconhecido. Vida de solteira? Não. Você não é mais uma solteira. É uma descasada, uma divorciada, uma avulsa (tantas as denominações que parecem beirar o preconceito!), pisando, portanto, um terreno desconhecido e movediço, o que é bastante diferente de ser solteira. Uma descasada carrega nas costas certos pesos que a solteira desconhece. Por exemplo, o estigma, a discriminação que, por incrível que pareça, ainda pairam como uma névoa maldita ao redor do rótulo de "divorciada". Como se, carimbada por ele você tivesse sido declarada incompetente, desequilibrada ou, ainda, devoradora. Esse tipo de preconceito é facilmente identificável com força e virulência ainda mais arrasadoras entre as próprias mulheres: uma descasada quase sempre representa uma ameaça ao delicado equilíbrio de uma casada, seja pela fantasia desta ter o marido roubado por aquela, seja por inveja de você, que se divorciou, ter tido uma coragem e bravura que elas não tiveram, ao sair de uma relação deteriorada. Como se não bastasse, ainda há o receio mesmo de você se transformar numa influência irresistível nos parâmetros de uma liberdade contagiosa que elas desejam veladamente, mas renegam com todas as suas forças em nome da manutenção de seu status quo. MORTES NA UNIVERSIDADE DE VIRGINIA Atônito, o mundo viu um novo assassinato em massa, o maior de todos, aliás, com o triste saldo de 32 mortos e um suicídio: o da Universidade Tecnológica da Virginia, nos EUA. Afora os sinais evidentes e diagnósticos de desequilíbrio no assassino, para o psicanalista Jorge Forbes, autor da célebre frase "você quer o que deseja?", barbáries como essa, cada vez mais freqüentes, estão contidas nos novos sintomas do laço social da globalização e devem ser contextualizadas. Para Forbes, a equação é a seguinte: o mundo mudou, mas nós não. "Saímos de uma sociedade que organizava a identidade humana verticalmente: a identificação com o pai, com o chefe, com o líder; uma sociedade que estabelecia padrões estáveis de comportamento, aos quais se aderia ou se rebelava, para uma sociedade horizontalizada, onde os princípios são outros e muito diferentes - ainda desconhecidos da maioria - o que leva a encararmos o novo com velhas categorias". Para o psicanalista, num momento em que todos se perguntam, angustiados, "por quê?", não há o que `compreender``. "Um massacre como este clama para que não depositemos todas as nossas esperanças no diálogo compreensivo, como o fizemos nos últimos trezentos anos, e comecemos a perceber uma nova realidade afetiva: os monólogos articulados`. Traduzindo, esse tipo de monólogo de que nos fala o autor é o de "estar junto sozinho". Pessoas que se agrupam, em sociedade, por exemplo, mas não necessariamente fazendo a mesma coisa ou se compreendendo mutuamente. PSICANÁLISE E MODERNIDADE Em sua monografia de pós-graduação em Psicanálise, a psicóloga francana Heloísa Bittar Gimenes discute a conjugação entre Psicanálise e Modernidade. A propósito da crescente cultura da medicalização em busca de alívio para o sofrimento psíquico, ela diz: "à força de acreditar no poder de suas poções, a psicofarmacologia acabou perdendo parte de seu prestígio, a despeito de sua impressionante eficácia. Na verdade, ela encerrou o sujeito numa nova alienação ao pretender curá-lo da própria essência da condição humana. E, quanto mais se promete o `fim` do sofrimento psíquico através das medicalizações, que apenas suspendem os sintomas, mais o sujeito decepcionado procura outras alternativas". Livro A leitura da extensa obra de Sigmund Freud, essencial para quem se aventura na tentativa de conhecimento da psique humana não é tarefa fácil, pela quantidade de textos, publicados em 23 volumes, e porque o autor foi reformulando suas teses com o passar do tempo. A Editora Artmed lançou o livro Ler Freud, de Jean Michel Quinodoz, uma espécie de guia ao apresentar os principais textos em ordem cronológica e situados no contexto histórico e social de sua criação. Quinodoz aponta também os desdobramentos teóricos de outros autores sobre os temas freudianos, remetendo-os à atualidade.

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