Superação


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O ano: 1969. Saem os alunos do Grupo Escolar "Professor Antônio Josino de Andrade", do período da tarde. Uma aglomeração de garotos se forma em volta do M. e do P, ambos de dez anos. O primeiro disse na hora do recreio que pegaria o segundo na saída e a notícia correu. Eis o motivo do ajuntamento. M. vem na cola de P. e diz que vai surrar-lhe, insulta-o, chama-o de merdinha, babaca e outros adjetivos desdenhosos. P., de natureza pacata, caminha encolhido e amedrontado, ouvindo as ofensas, tentando esquivar-se dos empurrões do outro e dizendo que não quer brigar. Sabe que se o enfrentar leva a pior. Os expectadores querem briga e, ao mesmo tempo em que instigam M., provocam P. "Ah! não, P.; você vai fugir? Está com medo? Vai agüentar sem reagir? Molenga!". M., encorajado pela platéia, recrudesce as ofensas, posa de valentão. P., depois de dizer várias vezes que não quer briga, sente-se encurralado e o sangue lhe ferve. Então cria coragem. Pára, entrega a capanga com o material escolar para outro segurar, pega uma pedra no chão e cheio de determinação diz a M.: "Então você quer me bater? Pois venha e verá se eu não arrebento esta pedra na sua cara; venha". M., surpreso, estaca. Não esperava essa reação e, impressionado com o olhar firme de P., recua. A coisa fica por aí porque a turma resolve entrar para apaziguar. Nunca mais M. desdenhou P. Na vida há momentos em que se deve deixar de lado o medo e enfrentar a adversidade, mesmo que ela pareça superior à nossa capacidade. Tem situações que exigem superação. Zé Geraldo, na música "Galho Seco", diz: "Quando a gente chega numa encruzilhada / olha prum lado é nada / olha pro outro é nada também / Aí o céu escurece, o céu desaba / tudo se acaba / Quando tudo tá perdido na vida / Só quando tudo tá perdido na vida / É que a gente descobre que na vida / nunca tudo tá perdido, minha flor". Numa partida do Campeonato Brasileiro de Futebol, no Beira-Rio, o Cláudio Adão, centroavante do Internacional, estava sendo vaiado em coro pela própria torcida porque havia errado umas jogadas. Mas ele tinha personalidade. Em poucos minutos marcou três gols e deu a vitória ao seu time. Vai dizer que ele não sentiu o brio ferido com as vaias? Que não teve vontade de mandar todos para aquele lugar? Só que, elegante, não fez nenhum gesto provocativo para a torcida nem antes nem depois de marcar os gols. Naquela situação adversa, ele pôs na cabeça que não ia sucumbir, que tinha de continuar lutando. Isso é superação. Não são raras as ocasiões em que a pessoa pensa que não vai conseguir o que deseja, e acaba desistindo. Henry Ford disse: "Há mais pessoas que desistem do que pessoas que fracassam". Creio que no nosso íntimo, num ponto longínquo da alma, há uma força esperando ser usada. Muitos desconhecem o próprio potencial e por isso desistem sem usar essa força. Fracassos todos têm, mas nem por isso se deve deixar de lutar. "Caia sete vezes, levante-se oito", diz um provérbio chinês. Conheço um migrante do norte que veio tentar a vida em São Paulo e conseguiu ser aprovado no concurso do Ministério Público com 36 anos. Nada tão magnífico se não fosse por um motivo: ele era analfabeto até os 17 anos! A Hortência revelou que quando jogava tinha dores terríveis nos joelhos. Apesar disso, foi uma das maiores jogadoras de basquete do mundo. O amor ao esporte e a determinação ajudaram-na a superar as dores. O Ronaldo estava praticamente inutilizado para o futebol em 1999. Contrariando todas as previsões, conseguiu voltar a jogar e foi campeão e artilheiro da Copa do Mundo de 2002. Sacrifício, superação! "É preciso que você faça aquela coisa que acha que não pode fazer" (Eleanor Roosevelt). Aqueles que se acham incapazes de realizar seus sonhos devem refletir à luz desses exemplos. Na vida deve-se ser sonhador. Mas não é só isso. É preciso também ter disposição de boxeador. PAULO PEREIRA DA COSTA é Promotor de Justiça

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