"E m breve incendiarás, em alegria e esperança, / O cofrezinho há de vir de novo à tua mão. / Já dei uma olhadela em seu interior. / Vi moedas douradas, efígie do leão”. Mefistófeles
Um dia as pessoas vão acordar e sentir vontade olhar pela janela e apreciar uma flor; apanhar um fruto no próprio pé ou ver um pequeno beija-flor, ou mesmo ouvir o canto de um pássaro, mas onde vão estar todos? Na França, Espanha, Inglaterra, Canadá e Estados Unidos, já se fala em perdas de 75% das colméias de abelhas da espécie Apis Mellifera, originária da Europa. As abelhas estão sumindo e ninguém sabe para onde estão indo. Não sabem se estão morrendo, porque, na rotina diária de busca aos alimentos, elas se afastam até três quilômetros das colônias e voltam, mas o que intriga os cientistas é que as abelhas, além de não retornarem às suas colônias, não são encontradas mortas no solo próximo às colméias. O fenômeno já tem até um nome dado pelos cientistas americanos: "desordem de colapso de colônias".
O fenômeno contabiliza prejuízos de bilhões dólares para a agricultura porque os americanos utilizam-se da polinização induzida para a produção de legumes e frutas. A polinização induzida consiste no deslocamento dos enxames por parte dos apicultores de um canto a outro do país de acordo com a época de floração de cada plantação. Atualmente, o principal trabalho dos apicultores é esse, alugar colméias para os agricultores nas épocas das floradas. Tanto é assim, que o mel acabou se tornando um subproduto das abelhas. As abelhas são indispensáveis, principalmente na cultura de amêndoas, maçã, cebola, laranja. O mais impactante diante dessa situação é que em qualquer artigo que se lê sobre os mais diversos problemas ambientais, provocados pela ação do homem, não se encontra o menor traço de preocupação com a dimensão planetária da questão. Não estão assombrados pela desgraça ambiental que esse fenômeno vai provocar. Somente as cifras são dimensionadas. Os bilhões de perdas para a agricultura mundial, as perdas para os agricultores que alugam as colméias. Enfim, somente o setor econômico tem importância e merece destaque. Mas, e as abelhas, as plantas, o ser humano, a natureza? Qual é o lugar que a Vida ocupa nas mentes dos capitalistas? Que papel exerce? Onde está situada a dimensão humana em tudo isso? Os economistas abominam esse tipo de abordagem, acham-na piegas e fora de contexto.
Todas as opiniões são respeitáveis. Acontece que todas as leituras de mundo atuais são vistas pela lente do "capitalismo selvagem". Não se dimensiona o humano nem a natureza. Observem que a natureza não precisou, nem nunca precisará do ser humano para sua perpetuidade. Já o ser humano não sobrevive em ambientes que não possuam as características físicas, químicas e biológicas do planeta terra. Numa visão simplista, poderia se perguntar: as abelhas, os ursos polares, os recifes de corais, o mico-leão-dourado ou a arara-azul, tem tanto direito à vida quanto o ser humano? Ou, não. São apenas ornamentos a embelezar os olhos do observador. Não têm importância para o processo vital planetário? Não se deveria tergiversar sobre a complexidade da vida e reduzi-la ao contexto do lucro ou do prejuízo. Enquanto durar essa abordagem mais espécies vão desaparecer da face da terra. A insensibilidade com relação às espécies "con-viventes" com essa civilização, poderá provocar muitas surpresas.
NADIR A. CABRAL BERNARDINO é advogada, formada pela FDF, Pós-Graduada em Política e Estratégia e Direito Ambiental
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