O Senhor Gestão


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Aos 70 anos, Jorge Gerdau Johannpeter é incansável em sua cruzada pelo País. É das poucas lideranças empresariais que conseguem casar visão estratégica, espírito público e sensibilidade política. Uma espécie de pregador em tempo integral das ferramentas de gestão na área pública, interlocutor contumaz do presidente da República, Gerdau pressente que Lula em breve deverá mexer na questão da gestão pública. Sentiu a enorme vontade do presidente de cair de cabeça no tema. É capaz de apostar que virão novidades por aí. Nos últimos tempos conseguiu sensibilizar vários Estados a implementar programas de qualidade. Sergipe, do governador petista Marcelo Deda, foi um deles. Outro provavelmente será a Bahia. Alagoas já aderiu. Antes deles todos, Minas Gerais. Com uma objetividade germânica, sua receita para o País é direta. O problema brasileiro é geração de emprego. Para tanto necessita de crescimento econômico. Para ter crescimento, necessita de investimento. Para ter investimento, de poupança. A questão é que 40% do PIB nacional está nas mãos do governo,e o governo não consegue gerar poupança para investimento. Ele aponta dois caminhos. O primeiro, duas ou três reformas estruturais, como a Previdenciária e a Tributária. O segundo gestão, gestão e gestão. Gerdau é fundamentalmente um pragmático, que acredita que o início de toda ação é o planejamento estratégico. Depois dele vem a implementação, que é basicamente a capacidade de entrar em todos os detalhes da operação. Vem desse senso de detalhe sua admiração pelo consultor mineiro Vicente Falconi, que começa todo trabalho com uma reunião geral e uma pergunta essencial: qual é o problema? Definido, quais são as soluções? E aí entra a pedagogia do detalhe. As consultorias sempre trabalham conceitualmente, diz ele. No chamado “choque de gestão” em Minas, constatou-se que na lavagem de toalhas e lençóis em hospitais públicos, 20% desapareciam. Que consultoria chegaria a esse nível de detalhe? Consultores em geral não entram nos detalhes, assim como os economistas, diz ele. Cita a honrosa exceção de Yoashiaki Nakano, ex-Secretário da Fazenda de São Paulo. Outra questão importante é a política, a maneira de vender os programas. Ele considera desgastado o termo “choque de gestão”, por ter ganhado conotação de eliminação de empregos. Anos atrás, em Minas, o então Secretário do Planejamento Walfrido Mares Guia entrou com mão pesada no setor de Educação, aproveitando sua experiência com a rede Pitágoras de ensino. Criou traumas na estrutura da máquina pública que perduram até hoje. Menciona que os programas de qualidade implementados por diversas administrações públicas não resultaram em demissões, mas em remanejamento de funcionários para áreas mais relevantes. O retorno do investimento não é ruim no Brasil para setor capitalizado, diz ele. Mas o mercado não cresce. É por isso que o empresário diz que vai bem, mas não investe. Gerdau ressalta que vão bem aquelas empresas com as quais individualmente Lula toma contato, como a própria Gerdau, a Votorantim. Quando se analisa o quadro geral do País, a indústria calçadista, a de móveis, há problemas generalizados. PLANEJAMENTO Para Gerdau, o setor público brasileiro começou a perder a noção de planejamento estratégico em dois momentos. O primeiro, no governo Figueiredo, quando Delfim, Ministro do Planejamento, passou a operar o curto prazo, esquecendo-se do longo. O segundo, no governo FHC, quando se juntou orçamento e gestão no mesmo Ministério. Ali, o Planejamento deixou de ser órgão formulador. Sua sugestão é que seja criada uma Secretaria ligada diretamente ao Presidente da República. JUROS DE MERCADO Na opinião de Gerdau, todos os preços hoje são regidos pelo mercado, menos os juros. Se deixassem os juros livres, com a entrada de dólares em pouco tempo as taxas internas estariam no nível das internacionais acrescidas do risco Brasil e de um pequeno spread. Em recente reunião de empresários em Comandatuba, ele sugeriu ao presidente do BC que deixasse os juros por conta do mercado. CÂMBIO Para enfrentar a apreciação cambial, Gerdau propõe, primeiro, queda de juros. Outro caminho seria não deixar entrar todo dinheiro e exportações de commodities de empresas como Petrobrás e Vale. Não se trata nem de confisco nem de tributo, mas de estudar formas de deixar o dinheiro disponível no exterior. Algo como o que foi feito no Chile quando explodiram os preços do cobre. SIDERURGIA Gerdau acha difícil uma consolidação da siderurgia brasileira, para a criação de uma siderurgia global. Com o setor nadando de braçada, duvida que Benjamin Steinbruck, da CSN, tope dividir poder. Ou que o grupo de funcionários que dirige a Usiminas aceite essa divisão. E ele, Gerdau, aceitaria? Também não. Mesmo assim, acredita que em dez anos o Brasil terá grandes players mundiais. OS CAIPIRAS Assim como outro grande empresário brasileiro do século, Walther Moreira Salles, Gerdau é encantado com a sabedoria do caipira. Em suas andanças por Minas Gerais, sempre volta maravilhado com a perspicácia e sabedoria dos caipiras mineiros. No papel, ele escreve um termo em alemão, que fala em “sabedoria do colono”. Há uma dose fantástica de intuição, que muitas vezes é sufocada pela educação formal.

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