Comportamento no cinema


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É óbvio supor que quando, em 1895, os irmãos Lumière, considerados os inventores do cinema, realizaram a primeira exibição pública de imagens em movimento, a reação tenha sido estrondosa, dada a dimensão da novidade. Ainda que as fitas da célebre dupla, em fase de experimentação, mostrassem acontecimentos corriqueiros como operários saindo da fábrica, em Lyon na França ou ondas agitando-se no mar, a platéia delirava. Em 1896, quando inauguraram a primeira sala de projeções cinematográficas, as filas para conhecer o que logo foi chamado de A Sétima Arte, dobravam as esquinas e os espectadores, num misto de espanto, excitação e assombro, se portavam ruidosamente, levantando-se durante as sessões, apontando com o dedo detalhes do que ali conheciam como "fotografia em movimento" sobre o écran. Vários retratos e pinturas da época, inclusive os pôsteres publicitários anunciando esses `happenings`, mostram com precisão o clima de exaltação que envolvia esses acontecimentos que acabava por reunir em si várias modalidades de espetáculos derivadas das formas populares de cultura, como o circo, o carnaval, a magia e a prestidigitação, a pantomima, a feira de atrações e aberrações, o vaudeville. Outra curiosidade histórica é a de que, nos seus primórdios na Europa, o cinema era entretenimento que atraía principalmente o proletariado dos cinturões industriais, imigrantes da Europa Central, que não conheciam as línguas inglesa e francesa, e, em razão disso, não podiam assistir a peças de teatro: o espetáculo mudo e de curta duração a preços convidativos se destinando então, basicamente, a pessoas sem recursos e sem educação formal. Mais de um século após sua rudimentar estréia, com o avanço das tecnologias, com a incorporação das linguagens literárias, dramatúrgicas, plásticas entre outras categorias estéticas, o cinema sofisticou-se a pontos inimaginados, de par com suas plataformas de exibição. DVD players, home theaters, aparelhos de MP4 e até celulares tornaram possível a exibição cinematográfica de forma privativa e portátil. O seu público também cresceu e se diversificou. O cinema foi se transformando, com o passar do tempo, numa arte democrática, com ampla variedade de gêneros disponíveis a todos os gostos. No entanto, apesar desses dispositivos ao alcance de muitos, as salas de projeção, hoje em sua maioria instaladas em shoppings, sobrevivem, salvas as proporções do progresso - ar refrigerado, poltronas confortáveis, som estéreo dolby surround, imagens digitais -, em ambientes bastante semelhantes aos da pré-história cinematográfica. O telão à frente de poltronas, o escurinho sugestivo , os croc-crocs da pipoca ou das balinhas compradas na entrada e a surpresa reservada pela película: tudo isso ainda povoa o imaginário do homem do século 21 e o atrai às exibições públicas. Assim, é óbvio supor (como no início desse texto), que sua platéia também tenha evoluído. Parece evidente que escolhendo ainda uma sala pública, quando tem outras tantas tecnologias à mão, essa platéia o faz como uma forma de reverenciar e reviver tudo o que o conceito de cinema envolve, certo? Infelizmente, aqui em Franca, não. Ir ao cinema em Franca, especialmente às quartas-feiras, dia de preços promocionais na bilheteria, é uma aventura parecida com a daqueles que participavam das sessões-vaudeville projetadas pelos irmãos Lumière: o pessoal bagunça, grita, fica fazendo piada antes de começar o filme ou para completar as falas dos personagens, e... meu Deus! aplaude quando termina a sessão, como se o diretor, o Spielberg, o Scorcese, o Costa-Gavras fossem se materializar ali para agradecer as palmas. Há quem ria disso, mas a maioria das pessoas que saem de casa para pegar um cineminha, se incomoda com a arruaça ao redor. Um amigo, que freqüenta cinemas de Ribeirão Preto e São Paulo e diz não ver comportamentos semelhantes nesses locais pergunta: "por que somos assim?" Para ele, essa - trocando em miúdos, falta de educação, essa falta de jeito para se comportar em público - é uma característica muito própria do francano. A esse amigo, mais ou menos da mesma geração que a minha (século passado!), eu pediria que puxasse pela memória as boas sessões do Bristol, São Luiz, Odeon (Santo Antônio, nos áureos tempos do pornô?). Não eram tumultuadas assim, pelo menos na maioria das vezes. A questão não é geográfica ou temporal, mas cultural, potencializada pela falta de valorização à escolaridade, ao conhecimento, e, de comboio, à aquisição de formas civilizadas de se colocar no mundo e na vida, pela inversão de valores. Num momento em que a cultura do cinismo prevalece, em que o tráfico de drogas é quase institucionalizado em algumas escolas, em que alunos agridem e ameaçam fisicamente professores e não reconhecem quaisquer autoridades que não estejam fardadas; num momento em que os pais não direcionam a formação de seus filhos e os deixam à mercê; num ponto em que um presidente analfabeto brande seu desprezo às `elites formadas em faculdades` e jogadores de futebol, sertanejos, pagodeiros, modelos-atrizes são os referenciais de ascensão social para essa meninada que está aí, estupidificada e acrítica, rasgar o estofado dos cinemas, ensopar o carpete de refrigerante, colocar chiclete grudento no assento alheio, assoviar, gritar, parecem-me café pequeno. E viva o vaudeville!

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